Toda a gente sabe…

Por hábito vou pouco a cafés e ontem acordei com uma vontade enorme de me esconder no meio da multidão, que sempre enche os cafés mais concorridos. Assim que lá cheguei, sentei-me com uma garrafa de água à minha frente e um caderno de apontamentos à mão. A garrafa era daquelas que contem 33 cl de água. Lentamente virei a água no copo. Dentro caiu apenas o suficiente para tapar um terço do seu espaço.

A minha intenção era encontrar um espaço que me permitisse escrever. A minha intenção era escrever e, mesmo assim, o caderno de apontamentos, que tinha depositado próximo à minha mão direita, manteve-se fechado o tempo todo.

Aproveitei a oportunidade para ficar por ali a observar as várias pessoas que entravam e saíam depois de um café rápido. Os aromas do café acabado de tirar e as doçarias que enchiam as bocas de água misturavam-se no ar aos vários sons das colheres a rodar nas chávenas camufladas pelas expressões convictas daqueles que mal conseguiam suster as palavras dentro da boca.

Pouco tempo passou até que os meus ouvidos captassem uma conversa repleta de muitas convicções surreais, se bem que muito reais para quem as expunha. Quase de rajada, ouvi a frase “toda a gente sabe…” seguida de uma qualquer consideração política ou desportiva.

Em poucos minutos fiquei a saber que “toda a gente sabe” que todos os políticos, dirigentes desportivos e empresários de sucesso são corruptos e estão dispostos a tudo para levar a água ao seu moinho. Havia quem dissesse frequentemente que “todos eles fazem a panelinha juntos e depois cada um recebe o seu quinhão”.

Bem, a verdade é que a conversa terminou com o fim do cafezinho que bebiam todos os dias antes de se deslocarem para o trabalho. A conversa continuou com os que ficaram. Primeiro, sobre a família e respectiva saúde. Depois sobre o clube de futebol, que “está a fazer bons jogos, mas tem que começar a usar as armas que os outros usam ou não consegue ser campeão”. E por fim, sobre a situação de desemprego que se abateu sobre uma das famílias.

A conversa rumou direito à dificuldade que o casal tem em encontrar um novo emprego. O outro, preocupado com a situação, lembrou-se que conhecia alguém numa empresa – a quem, pelos vistos, tinha arranjado uma consulta no hospital – a quem iria “dar uma palavrinha”, terminando com um “sabe como é, uma mão lava a outra e as duas lavam a cara”.

Na minha cabeça começava a rodar a frase “toda a gente sabe”. Foi tão forte que perdi o fim da conversa. Mal me apercebi da saída da “panelinha” que se formava ali mesmo à minha frente. O bloco de apontamentos continua fechado, a água no copo a gelar a minha mão e o meu pensamento a fervilhar de nada para escrever ou dizer, apenas aquela frase me atormentava com um momento de pura desinspiração.

Enfim, “toda a gente sabe” que estas coisas acontecem no nosso lindo país à beira-mar plantado. Só não percebo porque “toda a gente se queixa”…

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