O amor e o ciúme podem coexistir?

Amor? O que é? Para que serve? Será uma utopia recorrer ao amor nos dias que correm? E o ciúme? O que é? O que o motiva? É o amor? É o medo? É o orgulho? Será que o amor e o ciúme vivem interligados? Ou será o ciúme denunciador de falta de amor? E como podem – o amor e o ciúme – promover o desenvolvimento humano e a harmonização do mundo?

A sociedade actual vive um período conturbado por crimes horripilantes, suicídios incompreensíveis, pela ameaça presente de mais um ataque terrorista e pelo agravamento galopante da crise económica e social. Hoje em dia, o ser humano desconhece e rejeita a própria identidade devido a uma constante turbulência que o desgasta física, psicológica e espiritualmente.

Mesmo assim, há momentos que iluminam o longo e sombrio caminho que conseguimos percepcionar através de certezas estanques que nos calam a intuição. A impotência que sentimos a cada segundo faz-nos apontar o dedo aos outros sempre que algo nos foge ao controlo, em vez de saborearmos as oportunidades que a vida nos oferece, de forma a tomarmos consciência da luz que alumia o reencontro com a nossa essência.

Nós, humanos, somos seres relacionais. É através delas – as relações – que vivemos, crescemos e nos reencontramos. Desde o útero da nossa mãe até à nossa ascensão à luz, vivemos rodeados de pessoas com quem nos relacionamos, com quem partilhamos sentimentos, pensamentos, emoções, experiências; enfim, com quem partilhamos a energia que nos é essencial.

Essa energia é o amor.

Pode parecer uma utopia acreditar na força do amor nos dias de hoje. Para alguns será banal – até mesmo desnecessário – recorrer ao amor. Para quê? Num mundo conflituoso, em pé de guerra consigo mesmo, com permanente desrespeito de si, para que serve o amor?

Para nada! O amor não serve! O amor apenas vive, partilha, dedica, desvenda, desperta! Recorrendo a Platão, o amor apenas nos conduz rumo à natural condição humana. Platão comparou o amor a uma escada de sete degraus. O primeiro degrau consiste no amor físico, sendo o último o amor por realidades superiores. Todos os degraus são amor, se bem que fixar-se no primeiro é estagnar, tendo em conta o todo que podemos alcançar ao percorrê-los.

Há uns anos atrás escrevi um artigo sobre o amor no qual definia aquelas que, para mim, seriam as sete fases do amor. Foram inicialmente pensadas para o amor romântico, mesmo assim podem ser aplicadas a todos os tipos de amor. A primeira fase é a do Ego, já que o amor floresce para responder às nossas necessidades de atenção, de carinho, de admiração, de reconhecimento, de entrega. A segunda fase é a do Destino – os acontecimentos da vida provocam o desenvolvimento do amor. Estes acabam por levar à fase da Ilusão – o amor cresce envolto em véus que nos mascaram e escondem quem somos e o que desejamos. A Consciência é a fase em que o amor inicia o seu processo de amadurecimento através do conhecimento de si. Como consequência acontece a Desilusão, a quinta fase do amor. Aqui os véus ilusórios caiem um a um, revelando a verdadeira essência. Com esta descoberta, o amor passa à fase do Compromisso. Ao chegar a um acordo consciente, o caminho para a sétima fase está iluminado. Neste encontra-se o Desprendimento, aquele que levará a um amor desinteressado e incondicional.

Assim, alcançamos o amor de Parménides, que desperta a inteligência humana; o amor de Empédocles, que governa o universo pela união; e o amor de Aristóteles, que divide o Homem entre a contemplação e a partilha. Está na hora de seguir o exemplo de seres iluminados, que como Ghandi ou a Madre Teresa de Calcutá, demonstraram com actos “a força mais subtil do mundo” – o amor.

Enfim, o amor é a energia que faz mover o Homem, que inspira os actos e o crescimento humano. É a energia que vivemos interiormente e partilhamos com os outros através do respeito, da dedicação, do compromisso, da alegria, da compaixão, do cuidado e do companheirismo. Recordando Honoré de Balzac, o amor “não é apenas um sentimento: é também uma arte”.

O amor é a arte de canalizar energia. O amor é a arte de desvendar e oferecer a nossa essência, conscientes de cada transformação que ocorre dentro de nós, de cada dúvida que a vida nos suscita, de cada medo que possamos vivenciar. Como energia, o amor é um organismo vivo. E, como qualquer organismo vivo, o amor nasce, cresce, amadurece e transforma-se, precisando sempre de ser alimentado e acompanhado de uma forma saudável e natural. Este alimento é a consciência com que o vivenciamos.

Será, por isso, uma utopia recorrer ao amor? O recurso ao amor é vital à sobrevivência humana. A verdade é que, hoje em dia, há uma ideia de um amor que magoa, que mata, que odeia quando é contrariado ou renegado. Muitas vezes, actos violentos são justificados pelo amor e por vezes, justificados pelo ciúme como sinal de amor. É imprescindível questionar essa ideia consensual de interligação entre amor e ciúme, dois conceitos unidos pelo senso comum e separados pela essência. Este é o principal objectivo deste ensaio: através da descoberta dos conceitos de amor e ciúme, perceber até que ponto podem coexistir e perceber qual a sua importância no desenvolvimento do ser humano e na harmonização do universo.

Agora que já reflectimos sobre o amor, há que abordar o ciúme. De que é que se trata? O que é que suscita o ciúme? Podemos sentir ciúmes de objectos, animais, pessoas, experiências. E o que é que o motiva? É o amor? É o medo? É o orgulho? Para Freud, o ciúme é uma “projecção da possibilidade virtual de trair o parceiro”, indicando como motivação do ciúme o desejo escondido de trair o parceiro.

Concordo em parte com esta ideia de Freud. Acredito que possamos viver uma relação sem que pensemos em trair aqueles que amamos. A verdade é que, inconscientemente, sabemos que não somos fieis. A fidelidade é irreal se pensarmos que quando iniciamos uma relação vemos o que queremos ver e não quem temos à nossa frente. As máscaras que insistimos em usar enganam os outros e iludem-nos, pois quando nos sentimos atraídos por alguém idealizamos o outro. Desta feita, em vez de uma relação com uma pessoa, temos uma relação com duas pessoas: a que está ao nosso lado e aquela que idealizamos. Por isso, tendo a concordar que o que motiva o ciúme é a projecção daquilo que vivemos interiormente.

A verdade é que o conceito de ciúme não é consensual. Alguns teóricos consideram o ciúme como um sentimento, outros como uma emoção negativa, outros ainda idealizam-no como um complexo de pensamentos, emoções e acções. Por fim e segundo Pines e Aronson, há quem entenda o ciúme como uma manifestação biológica inata, como uma “reacção complexa a uma ameaça perceptível a uma relação valiosa ou à sua qualidade”.

Devo admitir que no início deste ensaio pensei ter já uma teoria sobre a coexistência do amor e do ciúme. Vi sempre o ciúme como denunciador de insegurança, falta de confiança no outro, falta de respeito pelo espaço individual – logo falta de amor. Por isso, a resposta era não, o amor e o ciúme não podem coexistir. De forma alguma!

A verdade é que agora – mais do que uma causa, um sentimento, uma emoção, um sintoma ou uma falta – o ciúme é, para mim, um apelo… um apelo da nossa essência para crescermos, para aceitarmos de coração aberto as mudanças que a vida nos oferece e para saborearmos em consciência as experiências que cada uma das fases do amor nos proporciona. Acredito que o amor nasce em nós para nós e só depois se espalha aos outros. Assim, o ciúme só aparece quando sabemos inconscientemente que algo precisa de ser mudado em nós para conseguirmos receber a felicidade que a vida nos dá.

E como podem – o amor e o ciúme – promover o desenvolvimento humano e a harmonização do mundo?

Simples! Vivendo-os de uma forma consciente – consciente das nossas responsabilidades e da nossa influência na saudável aplicação destes na nossa existência. O amor é energia, a energia que nos completa, e a arte de a melhor canalizar dentro de nós e para os outros. O ciúme é um apelo, um canal que o nosso eu interior utiliza para tornar consciente o caminho do nosso desenvolvimento. Posto isto, resta-nos assumir logo à partida a total responsabilidade das mudanças necessárias à nossa felicidade, ao nosso equilíbrio e à harmonia do mundo. Este caminho pode ajudar-nos a crescer emocionalmente de uma forma mais saudável, potenciando a felicidade e o amor verdadeiro na partilha do nosso espaço com os outros.

Esse é o segredo na interacção com os outros. Em qualquer relação é fundamental observarmos as emoções, os comportamentos e os sentimentos que as atitudes ou actos dos outros provocam em nós, em vez de observarmos os outros. Os outros são alvo do nosso amor. Por isso, como podemos exigir explicações, justificações, responsabilidades a quem o dedicámos? O amor é nosso, a dedicação também, por isso também é nossa a responsabilidade de o viver e partilhar de forma verdadeira e saudável.

O Homem deseja e teme o amor. Sente-se subjugado por ele. É uma força que não consegue controlar nem evitar. E esse é o passo seguinte. O amor não é para ser controlado nem evitado. O amor flui como o vento flui pelas asas de um pássaro, movendo-o assim pelo ar. O amor é recebido como um aliado. O amor flui como as águas do rio fluem rumo ao mar, onde se unem a tantas outras e se transformam num sonho ondulante. O amor é saboreado e festejado. A Humanidade viveu tantos séculos a tentar controlar, que não percebeu ainda que há duas forças que todos os dias recordam que o presente e o futuro exigem consciência, tolerância, compaixão, respeito e, principalmente, partilha. A Natureza e o Amor são duas forças universais que ultrapassam todos os obstáculos que encontram no caminho.

Por fim, sim… o amor e o ciúme podem coexistir. O ciúme não é sinal de amor, nem o amor motiva o ciúme. Apenas são intrínsecos ao Homem e ao desenvolvimento humano. Partindo do princípio que o amor é um organismo vivo, que passa por diversas fases de desenvolvimento, é expectável que em momentos de mudança e adaptação surjam dúvidas, medos, receios face ao desconhecido. Tal como o ser humano, também o amor visa o encontro com o que nos é essencial, através de uma viagem energética a um, a dois, a três ou a milhões, chamada vida.

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