Será que antes de conhecer é possível saber?

O mundo está cheio de opiniões sem qualquer fundamento sério. E destas nascem julgamentos desfavoráveis sobre pessoas, lugares, culturas, tradições. Enfim, o hábito de fazer julgamentos e generalizações apressadas acaba por motivar sentimentos hostis que terminam em atitudes de intolerância.

O dia-a-dia é um bom exemplo disso. Quando saímos de casa cruzamo-nos com várias pessoas. São completos estranhos e mesmo assim pensamos saber quem são apenas por se enquadrarem num determinado padrão social – padrões esses que muitas vezes nem sabemos como nasceram.

Assim, tomei uma decisão. Decidi ouvir com atenção cada pensamento provocado pelas presenças que se cruzassem comigo. A descer uma rua passei por diversas pessoas. De todas recebi indiferença e a todas ofereci ignorância. Os meus olhos viram vultos e a minha mente recriou-os sob a influência de estereótipos ridículos.

Primeiro, vi uma mulher que parecia ter saído directamente da cama para a rua. Pensei: “só pode ser louca”. Pouco depois, passou um jovem com a roupa rasgada com um olhar vermelho meio perdido e sempre a fungar. Logo concluí que se tratava de um drogado. Todas as manhãs, como aquela, cruzava-me com uma mulher dos seus 30 anos que subia aquela rua na companhia de um homem diferente. Naquela manhã pensei o que, provavelmente, pensei nas outras – “deve andar com todos e não é de nenhum”. Os miúdos que, em grupo, se dirigiam para a escola ao cimo da rua “devem ser burros” tal a quantidade de calinadas na língua portuguesa. Enfim, poderia ficar aqui o resto da vida!

Ah, já me esquecia! Faltam aquelas pessoas que vejo como pessoas de bem, que trabalham e respeitam os outros; como eu! Isto é ridículo, eu sei! Será possível que só estas pessoas são trabalhadoras, boas e respeitadoras? Apenas por me identificar com elas? Ridículo! Para não lhe chamar outra coisa.

A verdade é que estes pensamentos não são só meus. Quero acreditar no contrário, mesmo assim são várias as conversas nas ruas, nos transportes públicos, no local de trabalho ou em casa que comprovam que são pensamentos transversais à sociedade actual.

E são estes pensamentos e convicções sem fundamento que acabam por provocar atitudes hostis e intolerantes por todo o mundo. Pelo menos começam assim – pequeninos, insignificantes, ridículos, dignos de gargalhadas – e depois evoluem para actos, movimentos, agressões, guerras baseadas em “pré-conceitos” de algo que se desconhece.

E tudo isto porquê? Por causa das diferenças que constituem o mundo? E então? Somos diferentes e, por isso mesmo, como podemos rotular os outros quando somos tão diferentes e ainda por cima completos desconhecidos? Será isso possível – saber antes de conhecer?

O conhecimento é um estado, uma realização pessoal – é um caminho que percorremos para atingir uma meta. O conhecimento pressupõe verdade, crença e fundamento. Por acreditarmos em algo, não quer dizer que se trate de conhecimento, mesmo que a nossa crença seja verdade. Nesse sentido, é necessário que, para além de ser verdadeiro e de acreditarmos nessa verdade, tenha também algum fundamento.

Será um pouco como a investigação de um crime – sabemos quem o cometeu, como o cometeu, acreditamos na culpa do criminoso identificado e, mesmo assim, só conseguiremos puni-lo pelo seu crime quando existirem provas irrefutáveis disso.

A verdade é que a consciência daqueles pensamentos castradores fortaleceu a curiosidade em perceber o porquê de tudo isto. Porque será que facilmente rotulamos os outros mesmo sabendo que não os conhecemos?

Quantas vezes nos ofenderam, gozaram ou excluíram sem mesmo nos conhecerem? E será que isso faz de nós o que os outros pensam? Ou seremos algo que tem de ser descoberto a cada segundo?

Afinal, a mulher despenteada e ainda a arranjar-se pode apenas estar atrasada e com o vento a dificultar-lhe a vida. O jovem que fungava e tinha os olhos vermelhos pode estar constipado ou com alergias. Sim, porque a roupa rasgada é moda nos tempos que correm. A mulher que todos os dias tinha uma companhia nova pode ter amigos que vão na mesma direcção que ela. Os miúdos da escola… bem esses… podem até ser muito inteligentes e, mesmo assim, não saberem falar o português. Quantos portugueses não têm a mesma dificuldade?

Parece assim evidente que, para concluir que alguém é drogado, é aconselhável que seja verdade, que acreditemos verdadeiramente nisso e, principalmente, que tenhamos algo que o fundamente, uma prova irrefutável.

É fundamental que essa prova seja algo mais consistente que uma impressão, uma sensação ou uma ideia daquilo que um drogado aparenta ser.

A verdade é que os nossos pensamentos, as nossas atitudes, as nossas acções são condicionadas pela forma natural como defendemos tudo o que nos é próximo e comum e como rejeitamos ou tememos tudo o que nos é alheio e estranho. E desta forma simples e quase natural vivemos manipulados por estereótipos, por padrões sociais e por preconceitos e juízos de valor precipitados e sem fundamento. E assim vivemos em preconceito.

Krishnamurti, referindo-se à importância da escuta na vida do ser humano, disse que “A maioria das pessoas escuta através de uma cortina de resistência. Os preconceitos religiosos, espirituais, psicológicos ou científicos impedem-nos de ter uma verdadeira escuta, como no-la, impedem as nossas preocupações quotidianas, os nossos desejos ou expectativas, os nossos temores. (…) E tendo tudo isto como cortina, escutamos. Contudo, o que realmente escutamos é (…) o nosso ruído, o nosso som, não aquilo que realmente está a ser dito”.

Quase poderíamos substituir o verbo escutar por relacionar; e mesmo assim faria sentido… seria uma boa forma de caracterizar as relações humanas de hoje. As relações humanas são complexas e vivem grandes dificuldades externas e internas ao ser humano. As piores são de carácter interno. Os preconceitos encontram-se entre eles. Se confundirmos a imagem com o individuo, o relacionamento tornar-se-á insuportável para ambos. Recordando Francesc Torralba “é preciso ser receptivo ao outro (…) Há que dar a oportunidade ao outro, para poder fazer em pedaços aquela primeira imagem que construímos dele”.

Posto isto, parece importante evitar o peso que a imagem do outro nos coloca sobre as costas, porque os preconceitos afastam-nos das pessoas; tornam-nos escravos de uma ideia do que os outros são e a verdade é crua – os outros excedem sempre a imagem que construímos deles. Há aspectos no ser humano – “eu interior” – que dificilmente conseguiremos encaixar por completo nessa ideia, imagem que criamos dos outros.

Por isso, porque será que insistimos em saber antes de conhecer? Será isso possível? Ou será que estamos apenas a cair na ratoeira do preconceito, dos juízos de valor que tantas vezes levam à discriminação, à desigualdade, ao conflito e à infelicidade patente em tantas sociedades espalhadas pelo mundo?

Bertrand Russell dizia que “todos precisam de alguma filosofia, excepto os mais irreflectidos e, na ausência de sabedoria, será quase sempre uma filosofia tola. O resultado disto é a humanidade ficar dividida em grupos rivais de fanáticos, cada um desses grupos firmemente persuadido de que a sua colecção de disparates é uma verdade sagrada e a dos outros uma heresia maldita”.

Ao observar os bebés tendo a concordar com Bertrand Russell. Os bebés, ainda pouco afectados pela sociedade, lidam de forma similar com todos. Podem gostar de um e rejeitar outro sem que a razão seja tão básica como as diferenças que os distingue. Aliás, as crianças de tenra idade têm tendência a aproximar-se do que é diferente, desconhecido, e apenas por curiosidade – querem tocar, ver de perto, cheirar, sentir o paladar; enfim, conhecer e perceber do que se trata.

Em resposta às várias questões que foram deixadas a pairar, somos o que somos e estamos sempre em constante descoberta de nós mesmos e dos outros. O preconceito é apenas uma cruz limitadora do potencial das relações humanas.

Para aliviarmos o peso desta cruz e potenciarmos relações de qualidade e em harmonia, há que, primeiro de tudo, tomar consciência que ela existe e existirá sempre. O preconceito faz parte da vida humana, da vida em sociedade. Podemos minimizar a sua influência nas nossas vidas, se bem que o nosso receio do desconhecido fará sempre com que o preconceito persista.

Lou Marinoff defende que a forma mais certa de nos relacionarmos com os outros é promover a descoberta daquilo que “os nossos olhos não podem revelar-nos” para de uma “forma mais segura formar uma ideia precisa sobre os nossos semelhantes”.

A solução consiste numa acção conjunta da sociedade, pois está directamente ligada à nossa educação, à nossa cultura virada para dentro de si mesma. Promover a educação de um ser humano mais receptivo ao seu semelhante – independentemente da sua raça, cultura, religião, tendência sexual, entre outros – demonstrando que é graças a essa maior abertura que tornamos visíveis os nossos preconceitos e que nos acostumamos às diferenças que provocam o medo que alimenta o preconceito.

Enfim, motivar o Homem a sair da sua zona de conforto, tornando-a cada vez mais ampla, já que o diálogo e a troca de ideias com pessoas que pensam diferente de nós, as viagens e o contacto com culturas distintas e distantes são os grandes antídotos para o preconceito.

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