A comunicação intrapessoal influencia o nosso destino?

A comunicação intrapessoal é o diálogo interior onde debatemos as nossas dúvidas, dilemas, orientações e escolhas. Esta é a comunicação condicionada pelas nossas emoções. São estas que controlam e descontrolam tudo dentro de nós e na relação com os outros.

Já lá vão quase dez anos… dez anos de busca. Há quase dez anos fugi de mim mesma sem saber. Sentia-me perdida, frustrada e impotente. A ideia mais frequente na minha cabeça era a de apagar a minha vida por completo, como se de um computador se tratasse – queria premir a tecla do delete e apagar tudo o que já tinha escrito e reescrevê-la. Como se isso fosse possível!

A verdade é que era essa a minha vontade. Sentia que tinha perdido tempo, que o tinha gasto em coisas sem importância e faltava-me algo; não fazia ideia o quê. O sentimento de incapacidade para mudar o rumo da minha vida era castrador e instigava a fuga de mim mesma. Estava convencida que teria de apagar tudo para conseguir mudar a minha vida e, principalmente, derrotar a frustração.

Numa aula de yoga ouvi falar do ayurveda. Procurei informações sobre o mesmo e as várias terapias na internet. Encontrei algo que me despertou o interesse. Parecia ganhar uma nova luz. Uns dias depois acabei por descobrir um curso de massagem ayurvédica no Algarve. Pensei: porque não? Estava desempregada, sem qualquer oferta em vista; queria encontrar novas soluções para me valorizar e esta parecia válida. Foi tudo muito rápido! Poucos dias depois estava a entrar no autocarro rumo ao Algarve.

Lembro-me de estar eléctrica naquela manhã. Foram mais de sete horas de viagem, se bem que à medida que me aproximava sentia-me mais confiante no futuro; mais leve. Assim que lá cheguei, desci aos tipis – tendas típicas dos índios americanos – onde iria dormir nas noites seguintes. Sempre adorei a cultura índia e por isso escolhi dormir num tipi. Dessa forma, estaria mais próxima da magia natural.

Na primeira noite levei algum tempo a adormecer. O ranger das árvores, a luminosidade da lua e das estrelas – que pintalgavam o topo do tipi – agitavam-me as emoções. Quando finalmente adormeci, acordei com um cão a arranhar a tenda bem junto à minha cabeça. Assustei-me!

Bem, depois daquilo, passei a noite acordada a pensar no dia seguinte. Questionava-me sobre as pessoas – que tão diferentes me pareciam; escondia-me de pensamentos movidos a medo sobre coisas que nem sabia se aconteceriam; tinha o coração aos saltos, tal era a revolução de emoções dentro de mim. Estava ansiosa, com medo e cheia de vergonha – massagem, eu nunca fiz massagem. Começava a pôr em causa aquela “loucura”.

Às nove da manhã estava sentada numa cadeira próxima a outras colocadas no meio de uma sala em círculo. Estavam lá outras pessoas que se observavam com um olhar curioso e de aceitação – sei lá, senti-me bem ali, senti-me aceite, senti-me em casa. Essa sensação foi curta, pois uma das primeiras palavras da mestre foi: “digam-me quem são e porque estão aqui“. Perfeito! Era isso mesmo que eu queria! Como devem compreender, entrei em pânico. Não sabia o que dizer. Tinha sido uma fuga de tudo o que me aborrecia, se bem que não queria admiti-lo à frente daquela gente toda. Tentei encontrar na resposta dos outros uma que me servisse. Quando chegou à minha vez gaguejei e acabei por inventar uma desculpa reles sobre ser um complemento à licenciatura que estava a cursar. Enfim, balelas!

Naquele momento, se tivesse minimamente consciente, teria percebido que me descontrolei por completo por causa de todos os medos, dúvidas e falta de confiança em mim mesma, ao ponto de passar uma ideia completamente errada e absurda – ou seja, ao tentar proteger-me, esconder-me, acabei por expor todas as minhas fraquezas.

Felizmente recebi um sorriso caloroso em troca e as palavras certas para me manter ali. A mestre disse-me: “Sendo assim, ainda bem que veio; fico muito feliz por ter tido a coragem para dar este passo”. Curioso, curioso é que agradeci aquelas palavras sem perceber o verdadeiro sentido delas. Recordo-me que naquele momento me percorreu um sentimento contraditório; aquelas palavras confortavam-me ao mesmo tempo que me provocavam.

E porquê? Pelo mesmo motivo que tudo o resto aconteceu: emoções. São elas que nos controlam e descontrolam; são elas que nos activam e desactivam as defesas; são elas que simplificam e complicam a vida. Ter a capacidade para perceber as emoções – que emoções sentimos, porque as sentimos, o que as provoca e o que provocam elas em nós – é de um utilidade extrema na vida. Com esse conhecimento podemos evitar muitos conflitos, realizar muitos sonhos e conhecer quem somos.

Por vezes dou por mim a relembrar essa experiência inesquecível e desvendo sempre algo mais sobre mim mesma. Durante o workshop fui transportada para um mundo em que as emoções fluem, de uma forma natural e constante. Lembro-me que tentei por várias vezes bloqueá-las e acaba sempre com uma dor insuportável na zona lombar. Aos poucos fui permitindo a alegria acontecesse; deixei-me libertar e mergulhei numa sensação de bem-estar reconfortante. Percebi ali e assim que a vida é simples, nós é que a complicamos, porque grande parte das vezes nos impedimos de ouvir o que o nosso ser nos diz. Deixamo-nos amarrar pelo ego; vivemos com medo de acreditar no que nos vai na alma; tentamos esconder o que somos, por medo de ser rejeitado ou magoado de alguma forma. Negamos o que é essencial no ser humano: a nossa vulnerabilidade.

Enfim, muitos foram os acontecimentos que me fizeram abrir os olhos e, na verdade, todos os outros sentidos para interiorizar mais um ensinamento obtido naquele workshop revelador. Mesmo assim, há dois que foram marcantes. Um já vos contei; foi logo no início. O outro foi no final, à porta do centro, numa cena inacreditável de despedida entre pessoas que se tinham conhecido poucos dias antes e que pareciam estar a dizer adeus a algum familiar. Aquele momento foi denunciador da minha incapacidade para lidar com as emoções: as minhas e as dos outros; para aceitar e viver a minha vulnerabilidade.

Bem, quando saí do centro tinha alguns colegas de curso à espera para se despedirem de mim. Assim que atravessei a abertura, vi-o de braços abertos e sorriso largo. Envolveu-me num abraço surpreendente. Surpreendente para mim e natural, muito natural, para ele. Não estava habituada a este tipo de demonstração de afecto, principalmente com pessoas que mal conhecia. Aquele longo e sincero abraço foi interrompido por um descontrolo emocional sem precedentes… pelo menos, que me recorde.

Hoje percebo porquê. Aquele afecto, aquele abraço exigia de mim uma liberdade emocional que não tinha naquela altura. Provavelmente, ainda hoje não tenho.

Hoje consigo perceber melhor o que me impediu de viver certas experiências ao máximo; consigo identificar a cada momento o que posso estar a perder e o que está a motivar essa perda; consigo deixar passar oportunidades sem ficar a chorar sobre o leite derramado, porque vivo cada situação de uma forma mais consciente; e consigo também aprender com cada uma dessas situações algo mais sobre quem sou, o que quero ser e quais as minhas grandes metas na vida.

Posto isto, sim. Acredito que a comunicação intrapessoal influencia o nosso destino, porque influencia o nosso presente, a nossa vivência, o nosso eu. A comunicação intrapessoal é o diálogo interior onde debatemos as nossas dúvidas, dilemas, orientações, escolhas e onde reconhecemos as nossas emoções. Cada ato, cada palavra, cada sorriso, cada gesto, cada decisão é influenciado por tudo o que somos; e somos isso, apenas isso, somos emoção, somos pensamento, somos crença, somos desejo, somos medo, somos dúvida, somos confiança e somos vida.

Hoje sinto que ao longo dos anos fui desenvolvendo uma maior disponibilidade para saborear cada sopro de vida que me é permitido viver. E para isso foi necessário fugir de mim mesma. Curioso para uns, louco para outros, covarde para muitos, fundamental para mim.

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