Comunicação Interpessoal

A forma como comunicamos denuncia a nossa essência? Ou será que denuncia os nossos propósitos, os nossos objectivos, os nossos interesses? O que será que inspira a nossa comunicação com os outros?

A comunicação inspirou e continua a inspirar as artes criativas e de reflexão, tendo ganho, nos últimos anos, destaque no estudo académico. São vários os estudos científicos interdisciplinares que apontam definições, processos, barreiras, métodos de desenvolvimento; enfim, muitos são os caminhos trilhados para reflectir, perceber e melhorar a comunicação.

Devo começar por confessar que esta, especialmente a interpessoal, é uma paixão antiga. A relação da palavra com o gesto, do tom com o silêncio, da mensagem com o efeito sempre me fascinaram e levaram a observar e a reflectir sobre a forma como comunico e principalmente o porquê de comunicar assim.

Um certo dia saí de casa antes das oito da manhã e, quando abri a porta da rua, senti um vento gélido, desagradável e forte, muito forte. Não sentia frio – estava bem agasalhada – e mesmo assim sentia-me desconfortável; céus como soprava o vento! De tão forte que estava, empurrava-me pela estrada fora.

Umas horas mais tarde vi uma reportagem na televisão sobre os ventos ciclónicos daquela manhã. O que me chamou mais à atenção foi a explicação para a formação do vento: como se forma e o que o provoca.

Ao que parece, o vento é apenas ar em movimento. Este fenómeno ocorre devido a diferenças de temperatura, pressão e densidade. O Sol aquece a superfície da Terra e, consequentemente, o ar. A camada de ar aquecida, próxima da superfície, sobe para as partes mais altas e vai arrefecendo. O ar frio desce ocupando o espaço liberto pelo ar quente. E assim sucessivamente.

A descida do ar frio provoca a alta pressão e quando o ar quente se eleva cria uma zona de baixa pressão. A rotação da Terra faz o ar, que desce, circular à volta do centro de alta pressão. A baixa pressão é habitualmente sinal de chuva, neve ou tempestade – o ar sobe e arrefece; o vapor que liberta transforma-se em nuvens. Já ao nível do solo, o ar frio, que se desloca para substituir o ar quente em elevação, dá origem ao vento.

Curiosamente, aquela explicação recordou-me a comunicação interpessoal. Não consigo precisar se foi devido ao frio e ao quente ou a alta e baixa pressão ou mesmo à rotação da Terra. Na altura apenas pensei: que relação pode existir entre a comunicação interpessoal e o vento? Porque razão me lembrei disto a ver uma reportagem sobre ventos ciclónicos, alísios, tempestades, depressões e outros termos meteorológicos algo estranhos ao comum dos mortais?

Se pensarmos bem, o vento e a comunicação interpessoal nada têm em comum. Afinal, a comunicação interpessoal é a partilha de mensagens entre pessoas. Essas mensagens podem ser formadas por palavras, expressões, gestos, silêncios, atitudes e podem desvendar informações, emoções, sentimentos, desejos. Já o vento é ar em movimento – formado por camadas de ar que se movem como uma brisa refrescante num dia quente de verão ou como uma força gélida e cortante num dia frio de inverno. O vento é ar e a comunicação é mensagem. Um é movimento e o outro é partilha.

Será? Será que são assim tão diferentes? Ou será que conseguem ter pontos em comum de tão diferentes que são? E se substituirmos estas duas palavras pela expressão “Transformação”? E porquê transformação?

Porque movimento é transformação: o ar que se desloca do ponto A para o B é diferente nos dois pontos. E a partilha? Também. A partilha é transformação: a mensagem que A partilha com B é diferente nos dois pontos. Assim, o vento é ar em transformação e a comunicação é mensagem em transformação.

Acompanhem-me num raciocínio: pensemos na comunicação como no vento. Em vez de ar temos uma mensagem. O fenómeno da comunicação interpessoal – e falemos desta apenas – ocorre devido a uma necessidade relacional que o ser humano tem. Recordemos que o vento ocorre devido à relação entre o Sol e a superfície terrestre – fundamental à sobrevivência da Natureza.

Também as relações humanas podem ser medidas em termos de temperatura, pressão e densidade. Uma relação entre duas pessoas pode ser quente e fria – se gostamos de alguém, comunicamos de uma forma mais calorosa; se a conhecemos há pouco tempo, mantemos uma postura mais distante, mais fria.

E a pressão? Em que momentos da nossa comunicação encontramos a pressão alta e baixa? Nos momentos em que sentimos uma empatia natural com alguém… nesses ficamos tão à-vontade que a pressão baixa – falo da pressão de corresponder às expectativas do outro. E quando nos sentimos numa postura mais distante, mais fria, acabamos por sentir a pressão a subir, pois temos uma expectativa a corresponder ou uma imagem a defender. É de lembrar que o ar frio provoca alta pressão e o ar quente baixa pressão.

Na comunicação interpessoal, a densidade ganha um significado diferente. A densidade aqui está relacionada com a positividade ou negatividade que vemos e pomos nos outros e nos acontecimentos. E isto está directamente relacionado com as nossas emoções, com as nossas experiências, com os nossos sentimentos e desejos, convicções e percepções.

Pensem: quantas vezes no dia-a-dia – no local de trabalho ou mesmo em casa – tomamos decisões condicionadas por experiências do passado, que aparentemente são iguais às que vivenciamos no presente? E será que são? Será lógico pensar que estamos constantemente a viver experiências repetidas e que todos somos iguais?

Todos os dias nos deparamos com situações similares e são raras as vezes que optamos por parar e pensar antes de agir. Diria mesmo que hoje não há tempo para agir, apenas para reagir. Assim, liga-se o piloto automático para lidar com a vida, pois a exigência dos números, da quantidade, do agora levam-nos a passar pela vida sem questionar – isso pode ser fruto da nossa densidade estar mais no pólo negativo que no positivo.

Suponhamos agora que os outros e a dinâmica relacional do dia-a-dia é a rotação da Terra que faz o ar circular à volta do centro da pressão. Por incrível que parece, quanto mais baixa for a pressão, maior a probabilidade de tempestades – tanto a nível meteorológico como a nível relacional. Curioso e verdadeiro. Quanto mais à-vontade nos sentimos, maior probabilidade existe de surgirem divergências de opinião, até porque partilhamos mais facilmente as nossas opiniões com quem conhecemos e demonstra receptividade a ouvir-nos. E se a pressão é alta e nos sentimos menos à-vontade, habitualmente procuramos corresponder às expectativas do outro e por isso mostramos mais o que o outro quer ver e menos o que somos na realidade.

E será que é isso que influencia a comunicação interpessoal? Será que são os nossos interesses, os nossos propósitos e objectivos que influenciam a nossa relação com os outros? Ou será que a forma como comunicamos com os outros denuncia a nossa essência?

Se olharmos para as funções que a comunicação interpessoal assume, pode dizer-se que sim: são os nossos objectivos que influenciam a nossa relação com os outros. Afinal, se a comunicação interpessoal tem como função informar, controlar, motivar, influenciar, persuadir e emocionar, isto quer dizer que teremos sempre um objectivo a atingir quando comunicamos com alguém.

Todavia, a comunicação interpessoal pode ser calorosa ou fria, simples ou complexa, agradável ou desagradável, amigável ou conflituosa; o que quer dizer que aparentemente também está relacionada com o que somos, o que sentimos e o que vivemos. Até porque nos relacionamos através de palavras, gestos, expressões, sons, silêncios; e estes nascem e alimentam-se em emoções, sentimentos, sensações, experiências, desejos, recordações, dúvidas, dilemas, conhecimentos, orientações – que no seu todo, definem quem somos.

Para um ser relacional como o Homem, a comunicação é vital. E porquê? Pelo simples facto de ser uma arma poderosa para tocar os outros, para liderar multidões, para fortalecer ou enfraquecer comunidades. Uma palavra, um sorriso, um toque, um olhar, um carinho no momento certo mudam o mundo – não seja mais nada o mundo de alguém.

E o vento?

Também o vento é vital ao contribuir para o intercâmbio entre a atmosfera e a hidrosfera, ao actuar como elemento de transporte e dispersão e ao servir como elemento condicionante da evolução das espécies. E por tudo isto, também o vento é poderoso, também o vento lidera multidões, fortalece e enfraquece comunidades. A verdade é que o vento, seja que forma assuma – uma leve brisa, um forte vento frio ou uma tempestade ciclónica – cumpre sempre as suas funções na Natureza.

A comunicação interpessoal é o reflexo de quem somos e somos o que sentimos, pensamos, fazemos, desejamos. Somos o que vivemos e comunicamos influenciados por vários factores, alguns internos outros externos. Naquele dia, aparentemente, o vento foi um deles.

E hoje? Como está o vento?

Só por curiosidade, em que palavra pensaram? Agradável, desagradável, forte, suave, gelado, refrescante…

E será que está mesmo? Ou será que apenas percepcionaram o vento tendo em conta o que já estavam a sentir? Não raras vezes, sentimos nos outros aquilo que vivemos dentro de nós… esse é o maior obstáculo a ultrapassar na comunicação interpessoal – desprendermo-nos do que é nosso para receber o que o outro partilha connosco; assim, poderemos transformar e enriquecer o nosso mundo.

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