No final, tudo faz sentido


Fugi sem saber. Sentia-me perdida, frustrada e desamparada. Lembro-me que a ideia mais comum na minha cabeça era apagar a minha vida completamente, como se fosse um computador – queria apertar o botão de apagar. Eu queria reescrever a minha vida. Como se isso fosse possível!
A verdade é que este era o meu desejo. Senti que tinha perdido tempo com coisas sem importância, relações sem sentido, anos de dedicação a pessoas e empregos que sugavam a minha energia. Sentia-me incompleta, faltava-me algo, não fazia ideia o quê.
O sentimento de incapacidade para mudar o curso da minha vida foi castrador e instigou a fuga de mim mesma. Estava convencida de que tinha que apagar tudo para ser capaz de transformar a minha vida e especialmente derrotar a frustração. Esse sentimento levou-me ao yoga e depois à massagem. Mas para isso eu precisava fugir. Curioso para alguns, louco para outros, covarde para muitos, importante para mim.
Seja como for, corri um risco! Inscrevi-me num curso de massagem ayurvédica e fui à procura de mim. Sentia-me em casa e ao mesmo tempo sentia-me envergonhada por expor as minhas fraquezas; quero dizer, o que pensava serem fraquezas.
Como em todos os eventos de formação, a mestre pediu-nos para nos apresentarmos e dizer o que nos levou até lá. Eu menti! Eu não era capaz de dizer, na frente de todos, que eu estava lá para escapar de tudo o que me irritava. Como poderia admitir que estava lá porque não sabia quem eu era, porque me sentia perdida e sozinha? E tudo isso porque não era capaz de enfrentar meus medos, meus medos mais profundos, meus demónios e assumir o controlo da minha própria vida.
Durante o workshop fui transportada para um mundo onde as emoções fluem de forma natural e constante. Lembro-me que tentei bloqueá-las várias vezes e acabei sempre com uma dor excruciante na parte inferior das costas.
Aos poucos, permitia que a alegria acontecesse; libertei-me e mergulhei num sentimento de bem-estar reconfortante. Percebi então que a vida é simples, somos nós que a complicamos, porque na maioria das vezes não nos permitimos ouvir.
Permitimos que o ego nos controle; temos medo de acreditar no que a nossa alma nos diz; tentamos esconder o que somos, porque tememos a rejeição ou a dor. Negamos o que é uma qualidade essencial do ser humano: a nossa vulnerabilidade.
A vulnerabilidade é uma força interior que nos leva a baixar a guarda, a amadurecer, a anular os véus ilusórios que nos escondem dos outros e muitas vezes de nós mesmos.
Sempre vi a vulnerabilidade como uma fraqueza e através da massagem percebi que ser vulnerável é ser fiel a si mesmo, é relacionar-se com os outros com o coração aberto, livre de ideias pré-concebidas.
Ser vulnerável é ser puro, inocente, genuíno. E percebi isso durante aquele workshop. Depois de tanto tempo a esconder-me de mim e dos outros, eu tive um colapso nervoso quando o assistente da mestre me perguntou: tens medo de quê? Eu nunca vou esquecer essa pergunta – a resposta era eu!
Foi o momento mais vulnerável e importante que vivi em toda a minha vida. A verdade é que, aquele momento me ajudou a viver de forma mais transparente, sem misturas, sem mistérios, dando em cada momento tudo o que sou, com clareza e pureza.
É essa pureza que mantém o meu coração e a minha mente predispostos a receber o que a vida traz e a aceitar de braços abertos as experiências que me fazem crescer.
Hoje sou capaz de entender melhor o que me impediu de viver certas experiências ao máximo; eu posso identificar a cada momento o que estou a perder e o que está a motivar essa perda. Eu posso superar oportunidades perdidas sem confusão, porque vivo cada situação de uma forma mais consciente. Também posso aprender com cada uma dessas situações algo mais sobre quem sou, o que quero ser e quais são os meus principais objectivos na vida. E isso é ser puro, é ser verdadeiro, ser vulnerável. Isso é ser vida!

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