Será mesmo a acrasia uma fraqueza de vontade?

«We live in a culture of deep scarcity, defined by this: never enough. You can fill in the blanks, never good enough, rich enough, powerful enough, safe enough, certain enough, perfect enough, extraordinary enough, and one of the most least discussed, but probably the most dangerous, not enough» .
Brené Brown é uma cientista social que estudou shame e blame durante anos e identificou a ideia de never enough como o maior trigger da vergonha.
O conceito de scarcity culture apenas torna claro que vivemos numa sociedade em que não existimos se não estivermos a fazer alguma coisa magnífica, em grande, com visibilidade. Existe a ideia que não interessa porque motivo as pessoas sabem o que fazemos, desde que saibam.
Este tipo de cultura é alimentado pela vergonha, pela comparação entre pessoas e pelo descompromisso. Hoje em dia as pessoas vivem num estado de constante medo, completamente desligados de si e dos outros, lembrando assim o que Aristóteles chama de «disposições morais a ser evitadas» , ou seja, «o vício, a incontinência e a bruteza» .
Esta scarcity culture em que vivemos na contemporaneidade motivou-me a reflectir sobre a acrasia, pois entendo que mergulhar no que nos deixa mais vulneráveis é o caminho para sermos mais fortes.
A acrasia não existe no entender de Sócrates, é uma incontinência para Aristóteles, é um problema de desalinhamento para Davidson e uma fraqueza de vontade no entender de Alfred Mele. É esta última ideia que pretendo questionar. Será mesmo a acrasia uma fraqueza de vontade?

O problema da acrasia é um problema antigo, muito debatido por filósofos, se bem que por vezes confundido com o vício. E parece-me que é esse o fundamento desta ideia de fraqueza de vontade. Muitas vezes a dependência (de bebida, drogas, tabaco, café, comida, sexo) são vistas como uma acrasia, ou seja, como uma fraqueza de vontade. O desejo de beber ou comer em excesso ou, então, o uso de substâncias alucinogénias ou o cigarro é, no entender de certos pensadores, maior que a razão. Concordo em parte. O desejo é maior que a razão.
No entanto, estes desejos não consistem na vontade do agente. Estes desejos são vícios e não momentos acráticos.

Parece-me que este conflito é a grande diferença entre apetite e vontade. A vontade não provoca um conflito, é uma certeza. Temos vontade de fazer uma coisa e fazemos. Não questionamos a nossa vontade. Podemos, mais tarde, vir a sentir culpa ou vergonha do resultado da nossa vontade. Mas isso só acontece por que deixamos que a razão tome conta. E quando a razão toma conta, entra em acção o julgamento, que coloca em causa tudo o que não corresponda ao expectável.
Como diria Davidson, racionalidade é uma interpretação e está dependente do corpo de crenças que condicionam o comportamento humano. Tal só acontece posteriormente ao acto motivado pela vontade. E porquê? Porque a vontade desvenda no agente o motivo para a acção. A vontade não provoca um conflito de vontades.
A vontade é um guia que nos permite perceber a complexidade de ser pessoa. Aqui estou a falar do conceito de pessoa de Daniel Dennett, que une a auto-consciência, a racionalidade e a responsabilidade pelas suas acções . No entanto, o apetite é questionado antes mesmo de ser expressado numa acção. O que quer dizer que a vontade é mais forte e menos controlável que o apetite. O julgamento, à partida, provoca um conflito interior, que refreia o nosso apetite.
A verdade é que sempre que lutamos contra algo, estamos a transferir a nossa força para aquilo que não queremos. O que acaba por enfraquecer o apetite que pode terminar com um vício. O apetite vive do conflito interior, caso contrário seria uma vontade. E entenda-se que os apetites não são apenas coisas más.
A verdade é que a vontade é mais profunda que o apetite. A vontade está assente na nossa auto-consciência, na consciência de nós. A vontade é um guia efectivo para conseguirmos perceber a complexidade de ser pessoa, de ser esta pessoa e não outra.

A vontade vem do que nos faz mover. A vontade não vem do que nos faz entrar em conflito. A vontade estimula o movimento, estimula a acção. O apetite estimula o conflito interior. No final desse conflito, de tal forma cansado, o agente age da forma que for mais simples agir. A não ser que exista uma razão que anule o conflito. Se o conflito se mantiver, no final é mais simples fumar um cigarro do que lutar contra o apetite de fumar.

A ideia de weakness of will aparece associado ao conceito de self-control, pois um agente self-controled está capaz e disponível para se conduzir a ele próprio conforme entenda melhor, tendo a habilidade de controlar a motivação para o contrário. Assim, a acrasia é uma fraqueza de vontade, por existir uma falha de self-control.
Mele entende que «human beings wholly lacking self-control are at the mercy of whatever desires happen to be strongest – even when the desires clash with their better judgments» .
No meu entender, o auto-controlo está mais relacionado com os apetites e não com a vontade, uma vez que o julgamento faz parte da razão e não da vontade. No entanto, o auto-controlo está muito condicionado pelo que nós somos como ser social. O agente humano é um construto da sociedade e isso leva-nos a entrar numa situação de julgamento, que no meu entender poderá condicionar o auto-controlo. Quase parece um auto-controlo por controlo remoto. A construção social que nós somos está a controlar o nosso auto-controlo, através do julgamento racional. E os motivos que temos para a acção são apenas racionais?
Parece-me que Mele está a seguir a ideia de Davidson, quando este pôs de parte o conceito de vontade e crença ao abordar o conceito de acrasia. Davidson entende que a acrasia pressupõe uma intenção e que existe como resultado de juízos comparativos, querendo aludir a um conflito de juízos dentro de um mesmo agente.

No meu entender, as forças motivacionais são propriedade da vontade. O julgamento é parte da razão. A acrasia pode tão simplesmente ser uma racionalidade inconsciente, uma racionalidade escondida que nos leva a mudar de intenção. Há uma decisão tomada, uma decisão racional, uma decisão tomada de uma forma deliberada, racional, medindo os prós e os contras, mas é uma decisão tomada numa altura em que poderemos não estar conscientes de todas as variáveis – ou seja, o que me parece mais lógico fazer é isto.
Mas é o que parece. Podemos fazer um pensamento lógico, mas nós não somos apenas razão. Aquilo que pode parecer uma coisa racional, pode tão facilmente ser confundido com algo que é apenas um julgamento inconsciente das razões emocionais que o provocam.

Fomos ensinados a julgar de uma determinada forma. Por isso, o nosso melhor julgamento pode nunca ser o nosso melhor julgamento. O nosso melhor julgamento será o julgamento de todas aquelas pessoas que contribuíram para sermos quem somos. O nosso melhor julgamento será aquele que for mais consciente para nós, depois de removidos todos os véus ilusórios, que foram sendo acrescentados à nossa razão ao longo da nossa educação.
É essa auto-consciência que vai reformular-se a nossa maneira de pensar, de percepcionar as situações. E quanto mais auto-conscientes, ou seja, quanto mais autênticos formos, mais consciente será a nossa racionalidade e menores momentos de racionalidade inconscientes nós teremos. Porque quando tivermos que decidir, vamos decidir logo à partida aquilo que mais demonstra what do I stand for.
O que é que efectivamente me motiva para fazer uma determinada coisa? O que é que me faz fazer uma determinada coisa? O que é que é efectivamente autêntico em mim que vai ser expressado numa acção, numa escolha, numa deliberação, numa decisão, num pensamento?
Parece-me que é isso que a vontade faz. A vontade guia-nos para uma auto-consciência de nós como pessoa. E por isso, não me parece que a acrasia seja algo ligado à vontade, nem força nem fraqueza de vontade. Não me parece que a acrasia seja uma falha de auto-controlo.
Parece-me sim que a acrasia pode até configurar-se como um instrumento da nossa vontade, porque na prática imprime an awareness das contradições das nossas decisões, escolhas e acções. É provável que o ponto de interligação entre as duas decisões, que constituem uma acção acrática, seja o ponto mais autêntico para nós. Aquele ponto não é nem um nem outro, é a correlação dos dois.
Parece-me que é nesse ponto que vamos encontrar a nossa vontade, uma expressão daquilo que nós somos, como somos, como pensamos.
Enfim, a acrasia é o resultado da acção da nossa vontade, que nos redirecciona para o que de mais autêntico existe na pessoa que somos.

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