Será o livre-arbítrio uma utopia?

A contemporaneidade encontra-se fragmentada por agentes perdidos entre momentos multiculturais e tecnologias desconcertantes, que juntam no mesmo espaço e tempo culturas com costumes diversos e, por vezes, contraditórios.
Tudo isto junto faz com que o ser humano procure fora de si algo que não sabe o quê e, dessa forma, se afaste cada vez mais de si mesmo. Há uma perda de identidade própria na sociedade actual, em virtude de uma ideia em que só o Outro tem valor – um Outro ilusório, que ninguém sabe quem é na realidade. Talvez por isso as redes sociais sirvam de meio para comunicar uma vida que não é a nossa, escudados atrás de nicknames e fotografias denunciadoras de uma necessidade de viver uma vida ilusória, apenas com o intuito de ser reconhecido como pessoa.
O que diria Marx hoje? O seu conceito de alienação é cada vez mais actual. Vivemos alienados do mundo à nossa volta, vivemos alienados do mundo dentro de nós, vivemos alienados do todo que nos faz pessoa, apenas distraídos por um desconhecimento completo de quem somos e por uma desresponsabilização do rumo que o mundo tomou.
Desta feita, pretendo reflectir sobre a influência que a crença no livre-arbítrio tem no comportamento humano, questionando se o livre-arbítrio pode ser a utopia da sociedade contemporânea. Ou seja, será o livre-arbítrio uma utopia?

A ideia para realizar uma investigação sobre a influência que o livre-arbítrio tem no comportamento do ser humano nasceu na observação de pessoas e situações em que tudo apontava para um desfecho e, no entanto, “algo” provocou outro desfecho.
Confesso que no início esta ideia estava escondida na necessidade de provar a mim mesma que sou responsável pela vida que tenho. Esta situação vem muito da fase da vida em que me encontro, no entanto é também influenciada pela minha formação académica em Psicologia Social e pelo trabalho desenvolvido como Life Coach.
Desta feita, a hipótese que pretendo defender neste ensaio consiste na influência positiva que o livre-arbítrio tem no comportamento humano e, também, a importância que este pode ter na transformação do mundo conflituoso em que vivemos actualmente. Ou seja, para além de permitir an individual behavioral upgrade, promove a social behavior upgrade, através da diminuição de actos de intolerância entre os agentes humanos, pois acredito que o livre-arbítrio reforça a compaixão humana.
Defendo que o efeito positivo do livre-arbítrio acontece apenas no momento em que o agente humano acredita que é livre na sua essência. Por outras palavras, um agente humano que acredite que tudo lhe acontece e nada é feito por si, não usufrui da riqueza que o livre-arbítrio imprime à vida daqueles que acreditam que os acontecimentos da vida foram causados pela sua vontade e que são livres de transformar no presente qualquer consequência que possa vir dos seus actos passados, reposicionando assim o seu futuro.
Posto isto, pretendo concluir que a crença no livre-arbítrio provoca uma mudança comportamental significativa, que diminui a conflitualidade, a desresponsabilização e a alienação reinantes no mundo contemporâneo.
Parto para este ensaio com a ideia de que o livre-arbítrio é um estado mental que nos permite acreditar que somos responsáveis pela vida que temos e nos permite ser capazes de ver alternativas de resposta a uma determinada situação, que podem levar a uma escolha, decisão ou acção. O livre-arbítrio não é o resultado, nem uma escolha, nem uma decisão, nem mesmo uma acção. Logo, o livre-arbítrio não é influenciado por condicionantes internas ou externas. O que pretendo concluir é que a crença no livre-arbítrio permite-nos transformar a forma como pensamos, deliberamos e percepcionamos a situação que temos à nossa frente. O resultado, seja uma escolha, uma decisão ou uma acção, está dependente da forma como pensamos, deliberamos ou percepcionamos a vida. Logo, temos ou não alternativas de resposta à situação que encontramos?

A utopia é o ideal de perfeição que serve de beacon, de farol no caminho de transformação de um mundo fragmentado por um desconhecimento interior de quem o humano é e o que o motiva e guia. Por isso mesmo, vejo o livre-arbítrio como a nossa utopia. Afinal, é o livre-arbítrio que nos permite pôr no nosso horizonte essa capacidade máxima de escolher, decidir e agir livremente, através de uma ponderação consciente e livre de todas as nossas escolhas, decisões e acções, se bem que sabendo que há coisas que estão fora do nosso alcance, do nosso controlo – há coisas que não são da nossa responsabilidade escolher, deliberar ou decidir, nem mesmo intencionar agir. Mesmo assim, há muito o que esteja ao alcance do nosso controlo.

Houve outros estudos em que as pessoas eram questionadas sobre o nível da crença no livre-arbítrio, para além de serem questionadas sobre o nível de felicidade, sucesso e outros. Foi detectado que existia uma correlação entre as pessoas que acreditavam no livre-arbítrio e as que tinham uma ideia mais positiva de sucesso, felicidade, relações longas, entre outras coisas. Estes estudos, e outros estudos como estes, não provam a existência do livre-arbítrio, se bem que provam que crer no livre-arbítrio promove a honestidade, ajuda a promover a gratidão, a reduzir o stress, a reduzir a agressividade e a aumentar a cooperação, aumentando a compaixão.
Para a neurociência, até onde se sabe, o livre-arbítrio é em grande parte uma ilusão e também conhecido como um construto social. Mas crer nele ou participar do debate sobre ele, influencia positivamente o nosso comportamento, ajudando a construir uma sociedade mais saudável e criando uma visão mais positiva da vida.
No início deste ensaio tinha a crença que o livre-arbítrio é um ideal de perfeição que aponta o caminho para acordar o ser humano e motivá-lo a contribuir para a transformação desta sociedade fragmentária através de uma consciência de si e do seu papel no futuro da Humanidade.
Agora, depois de tanto ler sobre o livre-arbítrio, de tanto escrever, reescrever, apagar e reestruturar este ensaio, recordei Sócrates e pergunto-me se o livre-arbítrio é o caminho para viver a meaningful life, uma vida significativa worth living e o caminho para ser a worthy and valuable person, auto-consciente, racional e responsável pelas acções próprias, capaz de ser pessoa!
Quem sabe!

Clica aqui para aceder ao ensaio completo.

 

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