“Pontapé de Saída”

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«O que é que vês quando olhas para o Tejo?»
«O que é que vejo? O rio…»
«Certo. E só vês o rio?»
«Sim.»
«E se olhares para o Tejo à noite? O que é que vês?»
«Nada. Está escuro. Não consegues… ah ok. Já percebi. Vês o rio, vês o sol, vês o mar, vês tudo o que está subjacente à imagem do Tejo, tudo o que o constituí e complementa. Certo?»
«Certo. Vês a imagem completa e vês cada frame da imagem. Na vida também é assim. A filosofia acaba por preparar o teu cérebro para ver além do que a tua percepção identifica à primeira vista. Enfim, ensina-te a questionar o que vês!»
«Queres dizer que a filosofia te ajuda a ver os pormenores com maior atenção?»
«Quero dizer que a filosofia te ajuda a desconstruir o que a tua percepção constrói. Para isso é necessário que consigas ver os pormenores que fazem parte dessas construções. E quando os identificas, podes definir aqueles que realmente são úteis à tua vida, tendo em conta a tua missão neste mundo, os teus objectivos – basicamente o que pretendes da vida.»
«Quem dera que fosse assim tão fácil.»
«Porquê?»
«Porque às vezes somos obrigados a fazer coisas que até nem queremos fazer, mas a nossa sobrevivência depende disso.»
«Como por exemplo?»
«Oh. Sei lá!»
«Sabes. Há algo que tu gostarias de mudar na tua vida e não mudas porque a tua sobrevivência depende disso.»
«Como é que sabes?»
«Porque falaste nisso.»
«Hum…»- ficou pensativa – «É verdade. Trabalho em algo que não gosto porque preciso de sobreviver e não arranjo trabalho no que gosto.» – deu-lhe tempo para respirar e pensar melhor nas palavras – «Quer dizer, eu gosto do que faço. Detesto o ambiente em que trabalho. Não me identifico com a política empresarial com que tenho que trabalhar.»
«Se há uma coisa que aprendi ao longo da vida é que se não consegues ser feliz com a vida que tens, também não vais ser feliz com a vida que queres ter. Acredita!»
«Então, mas isso é muito pessimista. Quase parece que não vale a pena lutar pela vida que queremos.»
«É exactamente o contrário. O que é que desejas mais na vida?»
«Sei lá!»
«Eu quero ser feliz. E, olhando bem para ti, tu também. Como todo o mundo.»
«Ah! Claro. Mas isso é óbvio! Pensei que estavas a falar sobre o que queria ter ou fazer.»
«Falava apenas do óbvio, do ser. Então pergunto: se queres ser feliz, porque raio estás à espera?»
«Como assim?»
«Tu queres ser feliz. O ser depende de ti apenas. De mais nada ou ninguém. Não tens que ter ou fazer para ser! Certo?»
«Ah ok! Certo.»
«Então, o que é que te impede de ser feliz?»
«O que é isso de felicidade?» – sorri.
«Ora aí está uma pergunta que a filosofia procura desde sempre responder. Aliás, todos nós nos debatemos com esta e outras perguntas. E é aqui que a filosofia nos é mais útil. A filosofia ajuda-nos a perceber que há conceitos que fazem parte de nós e que não nos servem. Esses conceitos ou crenças acabam por nos condicionar, impedem-nos de apenas ser. Afinal, durante toda a nossa vida ouvimos ideologias que confundem o ser com o fazer e o ter.»
«Queres dizer então que eu estou a confundir o ser com o ter e fazer ao dizer que não me identifico com as políticas empresariais da minha empresa?»
«Olha, eu amo o meu trabalho. Mesmo assim, há pessoas, situações, políticas, instituições com as quais não me identifico e as quais não posso evitar. A verdade é que sinto-me feliz por fazer o que faço, sinto-me feliz por ter o que tenho. Sabes porquê?»
«Oh! Porque gostas do que fazes.»
«Porque sou feliz independentemente do trabalho, das pessoas, das situações… sou feliz independentemente do que a vida me traz. E sou grato por ser assim!»
«Hum…»
«Sofia… há situações muito difíceis de ultrapassar na vida. Quando pensas que te a amam e, na realidade, não te amam; apenas querem estar contigo por vaidade ou interesse. Ou então, quando toda a gente que te ama e admira espera que tu sejas bem sucedido, é muito difícil lidar com o insucesso. Sentes que desiludiste o mundo inteiro – pelo menos o teu mundo. E é nesses momentos que percebemos a força de um insucesso. A falta que ele nos faz para percebermos claramente a sorte que temos. Aconteceu-me há bem pouco tempo. Pensei que nunca mais ia conseguir olhar de frente para alguém. Queres saber a melhor? No dia seguinte sentia o corpo pesado e a alma leve, muito leve. Tinha uma alegria dentro de mim impressionante. Sabes porquê?»
«Não. Porquê?»
«Porque o insucesso era passado e repleto do meu esforço. Naquela manhã abriram-se mil e uma oportunidades para ter sucesso. A vida não acabou ali. A vida renovou-se ali. E o insucesso transformou-se em experiência, em saber que me permite hoje estar novamente a lutar por mais um sucesso e de uma forma mais consciente e confiante.»
«Quem me dera ser assim!»
(risos) «Não precisas de ser assim. O que precisas é de perceber que crenças estão a impedir-te de seres quem és. Foi isso que aconteceu comigo. Muitas vezes me recriminei por estar sempre com um sorriso nos lábios quando existia tanta tristeza no mundo. A verdade é que se já existe tanta tristeza, o mundo precisa que eu lhe traga felicidade para equilibrar a balança. Cada um de nós tem o seu papel no mundo. Quem sabe o teu é demonstrares que as políticas empresariais seguidas estão obsoletas?!»
«Quem sabe?»
Riram por alguns minutos em silêncio. E lá continuaram numa conversa animada.

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in Internem-me! Só posso estar louca!

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