Será possível não comunicar?

Será possível não comunicar?
Há quem responda a esta questão com a rapidez de um trovão.
Claro que sim.
Claro que não.
Os sim, apontam o silêncio como uma forma de não comunicação; esquecendo-se que o silêncio pode dizer muito mais que mil palavras.
Os não, apontam o facto de o Homem ser um animal relacional; logo é impossível não comunicar, sendo esta uma das características básicas do ser humano. A verdade é que esquecem-se que existem Homens que vivem sozinhos no meio do nada, sem se relacionarem com outros humanos – os chamados Eremitas, cada vez mais escassos, concordo, se bem que ainda existentes.
Desta feita, qual será então a resposta mais coerente a esta questão?
Primeiro de tudo, parece importante perceber o que é comunicar.
Na 4ª edição do dicionário de Português da Porto Editora é apresentado como significado de comunicar “tornar comum, participar, transmitir, conferenciar, falar, ligar, corresponder-se, propagar-se”, tendo esta origem na palavra latina communicare.
Recorrendo à 1ª edição do dicionário de Latim – Português da Porto Editora encontra-se o significado da palavra communico, as (e declinações are, avi, atum) – “pôr ou ter em comum, repartir, dividir alguma coisa com alguém, dar parte de, reunir, associar, misturar, falar, conversar, comunicar”.
Assim, comunicar pode tão simplesmente ser o acto de partilhar – informações, conhecimentos, emoções, sentimentos, influências, convicções, crenças, reclamações, experiências. Assim, a partilha aponta para uma acção entre dois lados, dois corpos, duas entidades, dois egos – repletos de diferenças e semelhanças. Talvez por isso o acto de comunicar seja um desafio tão motivador e assustador para o ser humano.
As inúmeras experiências da vida definem a compreensão que fazemos de nós, dos outros e do mundo. A essa associamos regularmente novas ideias e experiências que nos chegam através dos nossos sentidos. Os sentidos são funções do organismo que nos permitem perceber e reconhecer as características do meio envolvente.
O tacto é o primeiro sentido que desenvolvemos.
No decorrer da sétima semana de gravidez apercebemo-nos do que nos rodeia através do toque da nossa pele nas paredes do ventre materno.
O toque é, por isso, uma das formas mais reconfortantes de comunicação.
É assim que o recém-nascido comunica – pelo toque das mãos e pelo sorriso no rosto.
O tacto é, hoje em dia, um sentido pouco valorizado, se bem que o utilizamos durante toda a nossa vida, muitas vezes sem qualquer consciência da alegria que esse nos pode trazer.
Um toque ligeiro e um sorriso amigável é suficiente para influenciar a atitude das pessoas.
Sempre que o toque significa apreço, conforto ou confiança, as pessoas reagem positivamente, podendo mesmo conseguir-se a colaboração de um estranho.
A audição é o segundo sentido a ser desenvolvido no humano.
Pensa-se que se desenvolve aproximadamente na 20ª semana, havendo mesmo provas que as crianças reconhecem a voz da mãe ainda dentro da barriga.
Estudos dos reflexos de sucção dos fetos demonstram que estes chupam o dedo mais rapidamente quando ouvem a voz da mãe.
Segundo estudos realizados, o bebé já é capaz de reconhecer o cheiro da mãe no momento do nascimento, por isso o olfacto é tido como o terceiro sentido a surgir na vida humana.
Os bolbos olfactivos são extensões do sistema límbico do cérebro. Este sistema processa as emoções e as reacções vegetativas, para além de desempenhar também um papel no armazenamento e recuperação de recordações, razão pela qual uma mera brisa de um cheiro relacionado com o passado pode fazer ressurgir ideias e imagens aparentemente esquecidas.
O paladar é o sentido que mais participa em todas as actividades humanas, utilizando as cerca de 10000 papilas gustativas da boca – detectores de sabores reforçados pelo olfacto.
A visão é desenvolvida posteriormente e junto com os restantes sentidos permite escutar com atenção e observar de forma consciente.
O sexto sentido está directamente relacionado com a vulnerabilidade.
A vulnerabilidade é uma força interior que nos impulsiona a baixar a guarda, a arrancar os véus ilusórios que nos escondem dos outros e, muitas vezes, de nós mesmos.
Ser vulnerável é ser fiel a si mesmo, é relacionar-se com os outros de coração aberto, livre de ideias pré-concebidas – como uma criança inocente e ingénua. As crianças apresentam uma imensa alegria na forma como comunicam com o mundo e é dessa forma que se entregam em cada olhar, cada sorriso, cada brincadeira, cada exigência.
A vulnerabilidade impulsiona a pureza de pensamentos, sentimentos, atitudes, comportamentos; enfim, ajuda-nos a viver de uma forma transparente, sem misturas, sem mistérios, dando em cada momento tudo o que somos.
Essa pureza mantém o nosso coração e a nossa mente predispostos a receber o lado bom da vida, as coisas boas da vida e a aceitar de braços abertos as experiências que nos fazem crescer e regressar ao nosso caminho.
Ser vulnerável é ser puro, inocente, genuíno.
E isso vem com o desenvolvimento da nossa intuição.
A vulnerabilidade obriga ao conhecimento próprio.
E, por sua vez, este último nasce do acto de olhar para dentro, de ouvir os nossos desejos, pensamentos, sentimentos, medos, de farejar o nosso espaço no mundo, de saborear a nossa dimensão humana e de tactear a nossa essência. Tudo isto é possível através da intuição. É a nossa intuição – sensibilidade – que guia a nossa busca interior através dos nossos sentidos.
Num mesmo acontecimento podemos experienciar sensações diferentes dependendo se apenas ouvimos, cheiramos, sentimos, saboreamos, vemos ou se concentramos todos os nossos sentidos naquele momento, trazendo à consciência o que vivemos, o que somos e o que aquele acontecimento provoca em nós.
A verdade é que as emoções podem desarmonizar o ser humano ao ponto de forçar atitudes, comportamentos e palavras dos quais nos envergonhamos e nem mesmo concordamos. Este desequilíbrio, esta oscilação, acontece muitas vezes quando insistimos em não as escutar… não escutar as nossas emoções, nem tão pouco dar conta de que elas lá estão, levam a momentos de insegurança, de orgulhos feridos e reacções intempestivas e impensadas. Enfim, reagimos em vez de agir. Este é um ensinamento básico da vida: agir em vez de reagir.
Todos comunicamos por palavras, gestos, expressões, imagens, sons e silêncios. E comunicamos pensamentos, emoções, sentimentos, crenças, convicções, desejos, informações, frutos de aprendizagem, percepções; enfim, mensagens impregnadas por aquilo que somos, sentimos, pensamos, desejamos e acreditamos.
Na presença dos outros partilhamos tudo isso com um olhar, um suspiro, um gesto, uma palavra, um toque, um carinho; aí vivenciamos o que podemos chamar de comunicação interpessoal – a comunicação que existe entre pessoas, que pode ser verbal e não verbal, audível ou silenciosa. E aqui ganha força a ideia de que é impossível não comunicar. Afinal, por muito que forcemos a não comunicação, estamos a comunicar – uma atitude distante e indisponível também passa uma mensagem.
E numa situação de isolamento? Não estamos na presença de outros, por isso talvez seja mais simples a não comunicação!
Se pensarmos que a comunicação é apenas e só o acto de partilhar emoções, percepções, informações, conhecimentos, experiências, palavras, então estamos a dizer que sempre que sentirmos, sempre que recordarmos, sempre que pensarmos, sempre que reconhecermos um aroma, sempre que desejarmos algo estamos a comunicar – de nós para nós.
O “eu interior” partilha com a consciência; aí vivenciamos aquilo que podemos chamar de comunicação intrapessoal – a comunicação que existe dentro das pessoas, que pode ser sensorial ou mental, consciente ou inconsciente.
A própria meditação, que muitas vezes é vista como uma vivência sem acção, apenas de vigilância, é por si só uma forma de comunicação, pois torna consciente – comum – algo que não é visível e muitas vezes inconsciente.
Assim, parece que todos somos impelidos a comunicar, se bem que de formas diferentes, com intensidades e intenções diferentes, condicionados por percepções, crenças e emoções distintas e muitas vezes motivados inconscientemente por sentimentos ocultos e contraditórios. Mesmo assim, comunicamos!

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