Ami, a pequena casa velha

Ami é uma pequena casa velha que vive no lugar da Alegria. O seu jardim é o mais animado das redondezas. As árvores protegem-na dos raios quentes do Verão e das chuvas frias do Inverno.
As suas paredes brancas são ilustradas pelos braços oscilantes que servem de aliados do vento. Neles esvoaçam os pássaros, que constroem os seus ninhos por cima da sua cabeça, embalando-a ao som de cantares encantados. As flores dos seus canteiros acordam-na com um intenso aroma de primavera, enquanto oferecem o seu pólen às abelhas que ali bailam à vez com as coloridas e esvoaçantes borboletas.
Mesmo assim, rodeada de alegres espécies, Ami sente-se triste por estar vazia há tantos anos. Desespera por ter o seu interior repleto de estórias e brincadeiras dos seres estranhos que já a habitaram.
Os boatos espalham-se. Se continuar vazia, será substituída por uma nova. Do jardim recebe todos os dias um novo incentivo para continuar a acreditar em si, se bem que estremece de medo devido à sensação de inutilidade que sente.
A calçada, que conduz até à sua lateral, já se habituou a amparar-lhe as lágrimas que derrama por se sentir inútil. Todos fazem o que podem para a ajudar. Ela sente-se grata pela amizade, se bem que o conforto e o ânimo dos seus amigos são pouco para a solidão que à noite lhe tira o sono.
Ami sabe que precisa de acreditar mais em si. A verdade é que os longos anos de escuridão e de um imenso vazio provocaram um sentimento avassalador que lhe emperra as portas e janelas. Elas não têm qualquer vontade de se abrir.
Ela esconde dos amigos os seus medos mais profundos. Mesmo assim, os pássaros adivinham o que lhe vai na alma e decidem organizar grandes festas no jardim, chamando assim todos os seres das redondezas.
No início Ami estranhou tanto movimento. A inquietação dos pássaros – que cantarolavam as mil e uma ideias que tinham para as divertidas festas e que encheriam de novo Ami – juntava-se à algazarra provocada pela chegada de novos inquilinos ao jardim daquela casa.
De uma assentada só, apareceram os cães de latidos estridentes, os gatos de bigodes compridos, os esquilos de dentes proeminentes, os coelhos de orelhas compridas e os ratos de finas caudas. Todos traziam algo para decorar e contribuir para a festa. De repente, o jardim estava cheio de luz e alegria.
Ami entusiasmou-se de tal forma que abriu as portadas de madeira e todas as portas e janelas, convidando-os a entrar. Pelo ar entraram os pássaros, as abelhas e as borboletas. Por baixo deles, corriam os cães, os gatos, os esquilos, os coelhos e os ratos. As flores abanavam-se ao som da sua felicidade, enchendo o espaço com um aroma acre e doce. Também as árvores quiseram ver o que ali acontecia e, deixando que o sol iluminasse o seu caminho, vergaram-se de espanto sobre Ami.
Enquanto os cânticos e as gargalhadas beijavam o vento, o dia chamou a noite à festa e com ela vieram os pirilampos, iluminando as janelas da pequena casa com a sua cintilante presença. Nesse momento, passava pela estrada uma família com três crias.
Estavam visivelmente cansados. Uma das crias viu um gatinho maroto a correr em direcção à casa e soltou-se da mãe, indo rapidamente atrás dele. Temendo que o pequeno se perdesse na escuridão, o pai logo correu atrás do fujão, deixando os outros dois filhotes com a mãe. No carreiro que levava à porta de entrada, o pai começou a ouvir uma linda melodia e as risadinhas do filhote vindas do interior da casa.
A mãe e as outras crianças aproximaram-se do carreiro ainda a tempo de ver o pai maravilhado a entrar naquela pequena casa velha. Ela suspirou de alívio. Talvez ali alguém os pudesse ajudar. Estava cansada, com fome e com muito frio. Apressando o passo juntou-se ao marido e ao filhote. Ficou espantada com o que viu quando entrou na casa.
A cria fujona ria e dançava, enquanto os pássaros, as abelhas e as borboletas faziam um bailado maravilhoso com os lençóis que cobriam os móveis da casa e que há muito se haviam livrado do pó que os cobria.
As crias juntaram-se ao irmão, enquanto a mãe exausta deslizava lentamente por uma parede até se sentar confortavelmente no chão. Antes que chegasse ao chão, um dos coelhos empurrou uma almofada que, honrada por esta escolha, lhe amparava o corpo e o doce sorriso de agradecimento.
O pai olhava incrédulo para o que acontecia à sua volta – a luz dos pirilampos, a música dos pássaros, o bailado das amigas esvoaçantes, as brincadeiras dos pequenos de quatro patas e as paredes da casa que tinham agora mais calor e cor, tal era a sua felicidade – tudo o deixava maravilhado.
No fundo, era tudo o que precisava. Um tecto para proteger os seus filhos do orvalho, uma cama para descansar um pouco e alguma coisa para comer antes de continuar a sua caminhada até à cidade mais próxima.
Pelo que contou, vinham em viagem à procura de um sítio para viver. Os anfitriões da festa entenderam que aquela família estava cansada e precisava de descansar. Por isso, os pássaros começaram uma canção para embalar as crias até ao mundo dos sonhos e convidaram os pais a descansar por ali. O cansaço era tal que logo adormeceram.
No dia seguinte, ao acordar, a família encontrou um manjar dos deuses para se alimentar. Havia flores por todo o lado e o pequeno-almoço parecia o arco-íris, tantas eram as cores que tinha. O aroma das flores unia-se ao da comida que estava em cima da mesa.
As crias adoravam aqueles seres. A sua alegria e felicidade eram tão intensas que inspiravam um profundo sentimento de gratidão aos pais. Por isso, não foram surpreendidos quando os pequenos insistiram em viver naquela maravilhosa casa. Mesmo assim eles não sabiam o que dizer ou se estaria aquela casa livre para arrendar.
Os pássaros logo se disponibilizaram a contactar o responsável pelo arrendamento, caso eles estivessem interessados. Após uma vista de olhos pela casa, os pais olharam um para o outro e exclamaram: “É perfeita para nós!”.
Nesse momento, todas as portas de Ami se abriram mostrando o terraço e o maravilhoso jardim que escondia. A pequena casa não cabia em si de felicidade. Finalmente havia conseguido abrir passagem para o jardim da vida, onde estavam as famílias dos seus amigos de asas e de quatro patas.
As crias correram para o jardim atrás dos outros seres, cheirando as flores que lá estavam. Subiram às árvores e gritaram para os pais que aquela casa era sua. Os pais, radiantes com a alegria dos filhos, abanaram a cabeça para cima e para baixo em sinal de confirmação. Todos estavam maravilhados e isso fazia aquela casa mais jovem e ampla.
Juntaram-se para preparar a casa para a nova família. Os pássaros correram a buscar o responsável pelo arrendamento. Após a burocracia, a família instalou-se e preparou o jantar para si e para os seus fiéis companheiros. O jardim passou a ser a sala de jantar onde se reuniam para a ceia.
Quando já dormiam, Ami agradeceu aos amigos por tudo. Os pássaros nada tinham feito de extraordinário e também eles agradeceram. Afinal, Ami tinha aberto o seu coração e deixado que todos entrassem. Eles só queriam ser felizes e ali podiam tranquilamente fazer os seus ninhos.
A casa acreditou em si e nos amigos e teve a paciência necessária para que tudo corresse como havia desejado. Foi o seu interior que cativou aquela família. Assim, esta apareceu no momento em que Ami relaxou e acreditou que tudo iria correr pelo melhor… que as suas preces seriam ouvidas.

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