Os signos entre nós!

Histoire du Cinemá de Jean-Luc Godard é composto por oito episódios e consiste numa «recomposição fragmentada da trajectória da sua memória» , através da «elaboração de uma série de relações entre a memória do indivíduo Godard, a memória da geração de cineastas da Nouvelle Vague ao qual pertenceu, e a memória das gerações de cidadãos europeus que viveram e sofreram, no século XX, a odisséia da utopia da emancipação social e política da humanidade e foram profundamente marcados pelo trauma histórico do holocausto».

O episódio 4B desta série de Godard levou-me às sensações mais básicas. O saltar de uma imagem para a outra sem que fosse possível ver verdadeiramente cada uma delas; um correr de cores, de sons, de silêncios, de pessoas, de acontecimentos, de formas, de memórias rasgou em mim uma sensação de estranheza, imersa por vezes numa claridade ilusória ou numa escuridão inquietante. Quase parecia que outros seres viviam dentro de mim a um ritmo desenfreado de imagens.
Curiosamente, no final percebi que aquele filme não fazia sentido, nada me havia dito.
E foi esse nada que me atravessou com inquietante estranheza – esse nada provocou em mim um mergulho no vazio de mim mesma.
Como podem imagens – memórias – tão marcantes da história da Humanidade não me dizerem algo mais do que um nada vazio de tudo? E será que era um nada vazio de tudo? Ou será, que pelo contrário, era um nada repleto de memórias inconscientes?
Logo no início do episódio, o narrador, com uma voz profunda e imersa em dor, diz «O homem tem dentro de si coisas que ainda não aconteceram e que o levam até si». Esta voz, num ritmo pausado, sussurra palavras que conectam as imagens e o jogo entre a luz e a escuridão com uma dimensão sensível desconhecida do meu intelecto – amor, solidão, do absoluto.
Que coisas tenho eu dentro de mim que ainda não aconteceram e que me levam até mim quando vejo aquelas formas que aparecem a cada segundo? E porquê? Porquê esta impossibilidade de ver algo nessas formas, mesmo sentindo uma afluência desconcertante de sensações no momento em que as olho?
Talvez seja mesmo isso a ideia base de tudo isto, da imagem – o mergulho neste tudo que posso ver no nada que olho e que me transporta ao vazio flutuante de uma essência; um vazio que não se toca, um vazio que se queixa, um vazio que se transforma; um vazio que desvenda o abismo entre a minha identidade reconhecida e essa estranheza em relação a mim mesma.
Será que aquele sussurrar constante do narrador me tocou profundamente, tão profundamente que não me permito lá chegar?
Posso falar do que senti ao ver aquele deslizar de imagens…
O desconhecido da escuridão atravessado pelo vulnerável da claridade; a inquietude do silêncio transfigurado pelo conflito dos sons; o equilíbrio entre as cores e a imensidão do vazio – tudo se transforma num movimento entre o bem e o mal dentro do bom e do mau.
Este movimento de aprofundamento dentro de uma paisagem desconcertante faz-me ver de modo diferente o que em mim não se mostra. Aquele episódio não fez sentido para mim por ver a imagem como representação do mundo, da Humanidade. Este olhar aproxima-me demasiado da imagem, aquela imagem que não consigo capturar, pois a minha capacidade de compreendê-la e de conhecê-la foi condicionada pelo meu entendimento daquela realidade.
Olhar de longe aquela paisagem sensível que Godard criou através da linguagem do cinema, aponta o meu olhar para o bem e o mal de nada ver no tudo que há para ver. Aqui percebo que aquela imagem, ou fluir de imagens, indiciam a minha vontade de não querer ver a dor do mundo, a dor de um mundo que já não existe e que continua presente pelo espectro das formas que sobrevivem dele. Deste modo, não me permito levar por esse toque profundo do narrador e olho aquele fluir de imagens como uma criação desconcertante de um mundo que reconheço; olho aquelas imagens como fasma de um mundo que quero ver.
Este episódio de Godard instiga-me a olhar a dor desse mundo que não existe mais de um modo diferente, desfocando o meu olhar do mundo que conheço para ver o mundo que aparece ali, naquele fluir de imagens que acordam memórias impressas na minha vulnerabilidade de ser Humano.

Acede ao original aqui!

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