Introspecção

A investigação realizada sobre a evolução, a natureza e as características gerais do conceito de introspecção apresentou visões diversificadas da introspecção como (1) um processo de auto-observação; (2) uma espécie de acto perceptivo interno; (3) um acesso retrospectivo de estados mentais passados; (4) uma conexão constitutiva entre estar num estado mental e ter conhecimento introspectivo desse mesmo estado; (5) um evento mental de aquisição de informação sobre os nossos estados mentais actuais; e (6) uma experimentação interior livre.
Quando iniciei esta investigação, o conceito de introspecção era simples e fácil de definir: o acto de, conscientemente, olhar para dentro e tomar conhecimento daquilo que se passa dentro de mim. Continuo a poder definir a introspecção da mesma forma, se bem que de momento parece-me fundamental questionar a introspecção de outro ponto de vista. No início percebia a introspecção como um conceito que se articula na sua génese com a consciência, mesmo assim a introspecção quase parecia ser a capacidade de tomar consciência de um estado mental que ainda não estava à superfície, ou seja, que ainda não era consciente.
Entretanto, e partindo dos pressupostos que (1) apenas os estados mentais conscientes podem ser introspectados, (2) os estados mentais conscientes são a causa das crenças introspectivas e (3) o acto de introspectar depende da vontade do sujeito, contrariamente à consciência que é constante, questiono-me se a introspecção é, realmente, o evento mental através do qual tomamos consciência dos nossos estados ou processos mentais actuais ou do passado mais recente.
Smithies e Stoljar entendem que a introspecção serve de interface entre as duas principais questões filosóficas relacionadas com a ciência: (1) «metaphysical and scientific questions about the nature of consciousness »; (2) «normative and epistemological questions about the nature of self-knowledge ». Por outras palavras, estes filósofos entendem que a introspecção coexiste com a consciência, uma vez que esta última é, por vezes, definida «in terms of introspection ». E, ao mesmo tempo, coexiste com a auto-consciência, porque a introspecção «is the distinctive way in which we come to know about ourselves and, in particular, about our own conscious mental states, processes, and events ». D.M. Armstrong defende que a introspecção é a aquisição de informação sobre os nossos próprios estados mentais actuais e também uma aptidão para determinado comportamento. Já, Sydney Shoemaker entende que a introspecção não é observacional, uma vez que consiste numa conexão constitutiva, que advém da nossa racionalidade, ou seja, que está na génese de um ser racional ter consciência dos estados mentais que tem.
Posto isto, questiono: se a consciência está na génese de um ser racional e é constante, não dependendo da vontade do sujeito, como podemos definir a introspecção como um processo mental no qual tomamos consciência dos nossos estados mentais? Poderá a introspecção ser um processo mental no qual observamos a tomada de consciência de determinados estados mentais, que escolhemos para observar intencionalmente? Por outras palavras, a introspecção será apenas uma testemunha dessa tomada de consciência, em vez de ser a tomada de consciência. Desta forma, a introspecção seria sempre a atenção de ordem superior que falava Gilbert Ryle e o caos que referiu – o ciclo vicioso de redefinição constante da atenção de ordem superior – deixaria de fazer sentido.
Consequentemente, parece-me importante descontruir a ideia de crença introspectiva. No meu entender, a introspecção não é um processo de julgamento, é um processo de testemunhar o acto de consciência. O que poderá criar as crenças causadas pelos estados mentais (tenho um estado mental e acredito que tenho esse estado mental) é a tomada de consciência. Por exemplo, se estou triste (estado mental) acontece que, ao tomar consciência desse estado mental, acredito que estou triste. A introspecção apenas tem o papel de testemunha dessa tomada de consciência da ocorrência de um estado mental.
Por fim, parece-me que a introspecção consiste no acto de testemunhar a tomada de consciência de determinados estados mentais para os quais apontamos intencionalmente a nossa atenção. O processo de auto-observação, a percepção interna, a retrospecção, a experimentação interior livre e, mesmo, a meditação são ferramentas disponíveis para o acto de testemunhar a tomada de consciência dos nossos estados mentais. Este acto de testemunhar ajuda a organizar os pensamentos, sentimentos, emoções, crenças e experiências internas provocados pela tomada de consciência dos nossos estados mentais, podendo assim ajudar à auto-consciência.

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