Onde aflui o ser quando cria?

Jean Genet priva de perto com o génio de Alberto Giacometti e usa a escrita para se aproximar de um mundo único, repleto de imagens inesquecíveis, apesar do seu carácter simplório, quase nulo de beleza à primeira vista, se bem que requintado e belo quando tocado por um olhar profundo.
Nas palavras de Genet, «a obra de Giacometti torna o nosso universo tão insuportável quanto este artista parece ter sabido afastar o que lhe perturba a visão, e descobre o que resta do homem expurgadas que sejam as aparências» .
E o que resta deste homem é «unicamente a ferida (…) escondida ou visível, que todos os homens guardam dentro de si, preservada, e onde se refugiam ao pretenderem trocar o mundo por uma solidão temporária mas profunda» . É esta ferida que está «na origem da beleza» de uma obra de arte.
Parece que Genet procura passar a ideia que a obra de arte de Giacometti parte de um confronto com uma realidade que atinge o artista e traz à tona o que está oculto, como um movimento de abertura a estar ausente de si mesmo. Este movimento desvela uma forma de entendimento sensível do próprio mundo.
O livro “O estúdio de Alberto Giacometti”, como o próprio título o indica, é sobre o espaço de trabalho do artista. E é assim que Genet procura aproximar-se do objecto artístico. O autor olha o processo de criação, os moldes, a forma ainda em formação – procura compreender a passagem do molde à obra final, pois Genet entende que «para analisar um quadro são precisos maior esforço e uma complexa operação» e «Foi realmente o pintor – ou o escultor – quem por nós realizou essa dita operação» .
Genet é escritor e é pela palavra que procura abordar o trabalho de Giacometti. Esta ideia de passar da imagem à palavra levanta as primeiras questões que ficam deste texto – Como se aproximar textualmente do objecto artístico? Como transformar imagens, sons ou gestos em palavras? Como fazer ver através da escrita?
Ao longo do texto, Genet aproxima-se das imagens de Giacometti, se bem que apelando à fabulação, isto é, projecta histórias e tramas nessas esculturas altivas e poderosas, quase como se estivesse a criar personagens de uma fábula. A descrição que faz das estátuas (mulheres) de bronze de Giacometti demonstra como projecta vida nelas, pois «nenhuma ponta, nenhuma aresta que corte ou rasgue o espaço, nada está morto» . Genet confessa a sua ligação emocional a estas mulheres de bronze ao dizer que «nunca conseguiria evitar o regresso a este povo de sentinelas doiradas – pela pintura – que, atentas, imóveis, velam (…) velam um morto» .
A palavra que une e serve de ligação entre estes dois mundos tão diferentes é a solidão. O cinza do estúdio é o cinza do tom do texto; este cinza destaca a solidão partilhada pelos dois criadores, essa «zona secreta, solidão onde se refugiam os seres – e as coisas – é ela que dá beleza à rua» .
Para Genet, Giacometti é, como as suas obras, um artista em solidão com o mundo, mergulhado numa simplicidade cinzenta de quatro paredes. E é assim que «cada ente é-me revelado no que tem de novo e insubstituível – invariavelmente uma ferida – graças à solidão onde essa ferida os coloca e eles mal reconhecem, se bem que todo o seu ser aí aflua» .
A solidão, que tantos desorienta, dá o artista à criação, sendo «restituída a solidão do personagem ou objecto representados», pois «cada objecto cria seu espaço infinito» . E é essa solidão, no entender de Genet, que concede à pintura a sua sublime beleza.
Ao testemunhar o que não viu, Genet conecta-se à singularidade da obra de Giacometti, pois deixa-se fluir por aquela zona secreta, onde procura «revelar essa ferida secreta dos seres e das coisas, para que ela os ilumine» através da «descontinuidade do espaço» .
A solidão levou-me à questão que motivou tudo o resto. Onde aflui o ser quando cria? Genet diz a certa altura, que «não é o traço que tem elegância, mas sim o espaço branco por ele contido. Não é o traço que é pleno, mas sim o branco» . Esta ideia do vazio, do que não se vê, em torno do que se vê ser o ponto de equilíbrio e de elegância na obra de Giacometti, mostra o que não se mostra. Não é a solidão que é plena, mas sim a ferida que a ela nos entrega, pois «tudo se lhe depara na mais preciosa solidão» .
A criação nasce e morre na solidão, «o tal lugar secreto, impreciso e indescritível» , onde «ele, numa solidão total,» faz acto de presença; onde ele se coloca «frente a um ser a cuja solidão se juntou outra, oriunda do desespero, ou do vazio» . Essa ferida, que nos entrega à solidão, entrega-nos à criação e desvela essa intimidade carnal com o mundo, que nós somos no mundo.
A «solidão, como eu a entendo, não designa estatuto de miséria mas secreta soberania, nem profunda incomunicabilidade mas conhecimento mais ou menos obscuro de uma singularidade intocável» e transporta-nos a um instante, quase sem tempo, que apenas é o aparecer daquilo que aparece.
Giacometti «não as sonha, sente-as» . Genet também as sente. Afinal, «digo o que sinto: julgo que o manifesto parentesco das suas figuras está nesse ponto precioso onde o ser humano reaverá quanto tem de mais irredutível: a solidão de ser seguramente igual a tantos outros» . Por isso mesmo, Giacometti diz que «a minha solidão reconhece a vossa» .

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