O que é que me move?

Motivação…
Palavra curiosa!
Todos os dias escrevo, invisto um pouco mais de mim nesta partilha pela palavra e, sempre que surgem oportunidades, participo em workshops ou formações que possam melhorar a minha criatividade, a minha expressividade e a minha capacidade de reflexão. E tudo isto porquê? O que é que me motiva?
A palavra motivação nasce da palavra motivo, que tem origem na palavra latina motivu e significa movimento. Assim, pode depreender-se que motivação é algo que nos faz mover; ou seja impele-nos para a acção. A motivação é a força que inicia uma determinada acção e deduzo que nos ajuda também a escolher o caminho e a manter-nos nele.
A verdade é que depois de muito pesquisar sobre o tema e de reunir quilos e quilos de informação sobre a motivação – peço que compreendam, não vou maçá-los com ela – voltei ao mesmo: o que é que me move?
Há dias, após uma noite mal dormida e um dia de trabalho acompanhado com uma dor de ouvidos infernal, cheguei a casa, comi alguma coisa, tomei um comprimido e dormi por uma horita. Quando acordei, arranjei-me à pressa, sem grandes reparos, e saí novamente em direcção ao centro da cidade. Tinha combinado ir ao teatro nessa noite. E depois daquele dia pensei que poderia ser uma boa for-ma de enganar a dor.
Rir… passar umas horas a rir seria com certeza uma forma de espantar a dor.
Estava ainda a descer a avenida e já sentia a dor a aliviar. Não conseguia perceber o porquê. Passou noite e dia a martelar-me os ouvidos e agora estava a diminuir a cada segundo. A viagem foi rápida e tão calma quanto possível, já que a espaços sentia-os a dar a “dor” da sua graça.
Enfim, lá cheguei a São Bento e saí para o Sá da Bandeira. À porta do teatro já se juntavam várias pessoas. Os carros amontoados nas imediações já faziam prever casa cheia. Entrei quase como um fantasma. Fui levantar os bilhetes que tinha reservado e fiquei por ali perdida na entrada da sala de espectáculos.
Pouco depois fui abordada por duas jovens da produção. Era um espectáculo de improviso, por isso precisavam de perguntas e frases para testar os actores. Não conseguia lembrar-me de nada. A muito custo lá saiu a minha contribuição para o espectáculo.
Nunca tinha assistido a um de improviso. Inicialmente fiquei algo desconfiada. A minha capacidade de improviso é mínima. A verdade é que havia algo que me empurrava. Queria divertir-me. Esse era o meu mote.
Entramos alguns minutos depois. O teatro já é antigo e durante muito tempo foi pouco utilizado. Quando se entra sente-se um cheiro a antigo, fechado, carregado de humidade; enfim, mofo. As estreitas cadeiras são em madeira escura. À primeira vista parecem pouco cómodas, se bem que durante o espectáculo nem me lembrei delas. Terá sido pelos improvisos?
Confesso, sair de casa depois de um dia de trabalho era algo impensável. Naquele dia em especial mantive o combinado e lá fui para o centro da cidade assistir a uma peça de teatro / improviso. O que motivou o meu primeiro passo foi a vontade de rir, de me divertir, de distrair a minha atenção dos ouvidos.
Esse era o meu objectivo, o resultado que esperava para aquela noite, a minha motivação.
Hoje digo: ainda bem que saí!
Bem, enquanto esperava o início do espectáculo e ouvia os restantes a tagarelar a cada segundo, voltei à motivação. Porque razão pessoas minimamente conscientes e de livre vontade subiriam a um palco para serem surpreendidos por um grupo de desconhecidos.
Percebo que a paixão pela sua arte teve o seu peso e mesmo assim…
Enfim, a cortina continuava fechada, se bem que por baixo dela era possível ver-se algum movimento.
Movimento… estaremos a falar porventura de motivação? Não, falo mesmo de pés a interromperem a luz que se conseguia ver rente ao chão. Mesmo assim, este espectáculo foi um momento de clareza sobre a motivação e o que me motiva – a mim e penso que a eles também.
Voltemos atrás um pouco. A escrita é um meio de partilhar o que acredito, penso e sinto. A paixão pela escrita motiva-me a escrever, a contar estórias. A paixão pelo conhecimento e a curiosidade motivam-me a questionar e a reflectir sobre determinados temas – como este. A escrita serve essas paixões na perfeição.
A verdade é que às horas de criação de enredos junto as horas de pesquisa, reflexão e escrita de conteúdos temáticos – são muitas horas. E tudo apenas pela paixão à escrita e ao conhecimento?
No espectáculo de improviso pode pensar-se o mesmo. Para quê subir ao palco todas as semanas para ser testado? Porque não uma peça de teatro como tantas outras? Texto decorado, guarda-roupa definido, o drama fechado e mais que conhecido; enfim, o que fazem há tantos anos. O que nos leva a escolher a forma mais trabalhosa, se existem formas, aparentemente, mais simples?
Será por tudo o que se vive enquanto se cria? Será por o resultado não ser assim tão importante? Será que o que nos faz persistir são as experiências pelo caminho? Será que o que mais nos enriquece e fortalece são os erros, as adaptações, os sentimentos de superação de obstáculos, as surpresas e a sensação inestimável de cumprimento de mais uma etapa?
Como pode um simples espectáculo de improviso – desprovido de grandes cenários e guarda-roupas exuberantes, ausente de dramas psicológicos especialmente engendrados – como pode motivar-nos a questionar?
Actos à lá gardé é uma sessão de filosofia pura. O público toma o lugar de condutor em curtos jogos de criatividade imediata. Os actores não têm tempo para apurar a ideia. Em cima do palco despem-se de pudores e vestem-se de intuição, enquanto dezenas de desconhecidos lhes atiram palavras de um texto ainda por escrever e que todos têm que dizer, sentir, fazer acontecer.
Durante mais de hora e meia saltam de jogo para jogo sem hesitar, correspondendo com destreza, imaginação e diversão aos pedidos do público. Criam assim uma nuvem de união e familiaridade entre dezenas de desconhecidos praticamente às escuras.
A dinâmica criada entre os actores é de tal maneira harmónica que nem mesmo as perguntas improváveis do público ou frases escondidas em papéis perdidos pelo palco os impede de contar a sua estória de forma alegre, surpreendendo o público a cada improviso.
Desafio após desafio arrancam gargalhadas e aplausos que preenchem o espaço com uma energia única de quem se entrega de corpo e alma a mais uma oportunidade de fazer o que mais ama – mostram a sua qualidade enquanto sentem o público e representam o que este lhes pede.
A motivação aqui – e em qualquer outro projecto – é o caminho. Trilhar um caminho desconhecido fazendo face às surpresas, dúvidas e obstáculos que nos surgem pela frente. O resultado não é o produto ou espectáculo. O resultado é a aprendizagem, o crescimento, o desenvolvimento como pessoas, profissionais e artistas.
O que nos motiva é a curiosidade em saber mais, em saborear cada experiência de vida, é a paixão de ser.

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