A imagem fantasma em Alberto Caeiro

Em suma, o que Merleau-Ponty pretende defender sobre a sensação é que é um instante consciente, se bem que não do ser do qual somos responsáveis, mas de «um outro Eu que já tomou partido pelo mundo, que já se abriu a alguns de seus aspectos e sincronizou-se a eles ». Esta sincronia pré-pessoal pode explicar o subjugar da obra de Fernando Pessoa, uma vez que a forma peculiar como Fernando Pessoa escreve quase cria um momento em que o leitor experimenta a sensação como Merleau-Ponty descreve: «Entre minha sensação e mim há sempre a espessura de um saber originário que impede minha experiência de ser clara para si mesma », porque «Experimento a sensação como modalidade de uma existência geral, já consagrada a um mundo físico, e que crepita através de mim sem que eu seja seu autor ».
Esta sincronia pré-pessoal aponta, também, a sensação como imagem fantasma na poesia de Alberto Caeiro, uma vez que «as palavras levam a esperar sensações, assim como a tarde leva a esperar a noite » e «a significação do percebido é apenas uma constelação de imagens que começam a reaparecer sem razão », ou seja, as palavras são aqui o percebido transmutado em imagens que surgem do nada invisível do saber originário – «as imagens ou as sensações mais simples são, em última análise, tudo o que existe para se compreender nas palavras », porque «o nosso campo perceptivo é feito de “coisas” e de “vazios entre as coisas” », mostrando, assim, que «na leitura de um texto a rapidez do olhar torna lacunares as impressões retinianas, e que os dados sensíveis devem portanto ser completados por uma projecção de recordações ». O que pretende aqui dizer é que o sensível está envolto num caos ao qual se impõe um sentido pelo recurso às recordações colocadas em forma de dados.
Alberto Caeiro, no poema Ao entardecer, debruçado pela janela, mergulha na natureza, uma natureza que é vivida pelos sentidos, pois a natureza pensa-se sentindo.

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente.
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos…

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros… »

A natureza não é para aprisionar no pensamento; isso mata a Natureza, que é visível apenas aos sentidos. Se se pensar a natureza com a mente, e não com os sentidos, ela esvai-se por entre a tristeza de não compreender algo que já foi compreendido pelos sentidos. O sentido encontra-se na fonte. «O sentido de uma obra literária é menos feito pelo sentido comum das palavras do que contribui para modifica-lo. Há portanto, tanto naquele que escuta ou lê como naquele que fala e escreve, um pensamento na fala que o intelectualismo não suspeita ». Por este motivo, Merleau-Ponty entende que é «preciso reconhecer como irredutível o movimento pelo qual me empresto ao espectáculo, me junto a ele em um tipo de reconhecimento cego que precede a definição e a elaboração intelectual do sentido ».
A poesia de Alberto Caeiro expõe uma concepção de percepção como experiência directa do mundo, valorizando as sensações – em especial, o olhar – que aparecem desprovidas de significações. Para o poeta, «Pensar incomoda como andar à chuva » | «Quando o vento cresce e parece que chove mais », pois qualquer pensamento ou sentimento sobre o mundo, sobre as coisas, sobre as experiências sensoriais que acontecem «é fechar os olhos». Nas palavras de Alberto Caeiro lemos uma descrição da Natureza, vemos uma imagem construída com palavras sobre a Natureza visível, pois:

«Quem está ao Sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os
Pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não o que faz
E por isso não erra e é comum e boa. »

E será que vemos apenas isso?
As palavras de Alberto Caeiro trespassam-nos com uma simplicidade inquietante e, dessa forma, desvenda o desapego da razão, do julgamento e do pensamento. O mundo com que Caeiro cria é pensado pelos sentidos, repletos de estados meditativos que nos conectam a algo maior e exterior a nós, que se sente e não se vê, se bem que nos encaminhe para o mais profundo do nosso ser.
Parece, assim, criar uma imagem que não corresponde de forma total e transparente com a realidade. A imagem deixa de ser uma correspondência com a realidade e passa a ser uma paisagem daquilo que não se vê; ou seja, a imagem passa a ser o studium, no qual eu invisto a minha consciência, se bem que, perturbada por algo invisível (punctum), sou obrigada a ver de outro modo. Assim, sou empurrada para a dimensão do sensível, que não pertence ao olho, se bem que seja o mundo, um mundo que surge como um abismo, como um vazio que convoca em mim um movimento de errância para fora de mim como forma de aceder ao que não se vê em mim.
Alberto Caeiro oferece-nos uma experiência do mundo que reconduz o sujeito ao contacto directo com os objectos e à significação originária das coisas na medida em que elas se apresentam à percepção – não quer por isso despertar o pensamento; pretende despertar a experiência do mundo e o modo como ele se apresenta às sensações. Caeiro abandona a razão e promove o conhecimento por via da percepção, das sensações. Estas sensações dialogam por via de uma simplicidade visual que causa um vazio que nos inquieta e move para fora de um mundo caos elaborado pela língua e o pensamento, que o poeta usa como forma de desconstrução desse mesmo mundo.

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