A lo mejor, te quiero!

Virei costas e caminhei pelo passeio em direcção ao parque de estacionamento onde havia deixado o carro. Não fazia a menor ideia para onde ir. Estava a andar apenas para não ficar parada no meio da rua já noite dentro. Naquele momento não via nem sentia nada. Estava torpe. O esticão foi de tal ordem que rodopiei sobre mim mesma várias vezes até que caí literalmente em cima de um desconhecido.
«¿Estás bien?» – ouvi uma voz familiar bem perto do meu ouvido.
«Sí… creo que sí.»
Estava desnorteada. Apenas sentia os seus braços à minha volta, o calor do seu corpo e o perfume suave que exalava. Ali sentada no chão, sentia o abraço tão necessário ao momento. Aproveitei-o; pensando bem, abusei dele. Deixei-me ficar nos braços de um estranho; sentia-me em segurança. Que sentimento mais raro!
Ele parecia entender o turbilhão de emoções que facilmente me levaram às lágrimas. Não me lembro de alguma vez ter chorado tanto como naquela noite. Depois de muito fungar, senti a sua respiração cada vez mais próxima do meu ouvido.
«¿Te has hecho daño? ¿Sientes algún dolor?»
Isso só fazia com que chorasse mais; respirou fundo e tentou acalmar-me. Que figura a nossa! Sentados no chão abraçados e eu num pranto daqueles… só visto! Assim que me acalmei, procurei levantar-me sem o magoar ainda mais. Já de pé, comecei a sacudir-lhe as roupas, enquanto soltava a palavra “Perdón!” até à exaustão.
Muito sereno, agarrou-me as mãos e, tocando-me o queixo ao de leve, elevou os meus olhos ao nível dos dele.
«¿Estás bien?»
(com um profundo suspiro) «Podría ser mejor.»
Desfiz-me em lágrimas novamente. E mais uma vez, senti-me envolvida por uma mistura de força e carinho. Abusei! Abusei da sua atenção. Ainda estava a recompor-me de um soco no estômago e já estava a cair desamparada nos braços de outro homem. Que raios teria acontecido? Sentia o meu braço direito a doer, a alça da mala estava tão apertada que mais parecia um garrote.
«Perdón. Fue un día muy duro. Y ahora esto! Todavía no puedo entender lo que pasó.»
«Ellos trataron de robarte. Trataron de tomar su maleta. Sacaron tan fuerte que cayó indefenso.»
«Con su apoyo. Gracias, muchas gracias!» – fixava a minha boca sempre que falava; tinha os olhos mais negros que alguma vez vi, a pele escura, o cabelo negro e liso, nem comprido nem curto; parecia um índio, se bem que um índio da cidade, estava bem vestido, demonstrava bom gosto e alguma classe. Tentei soltar a alça da carteira.
«Cuidado, es posible que haya daño. Lo hago yo.» – com muito cuidado desenrolou a alça da mala e soltou o braço – «Ya. Siente dolor en el brazo?»
«Sólo algunas molestias.»
«Vamos a ver.» – sentiu o meu braço com a ponta dos dedos; parecia saber o que estava a fazer – «Mañana será negro pero, al parecer, no tiene ninguna fractura; aunque yo te aconsejo que vayas al hospital. Ven, te llevaré allí.»
«¡Oh, no. Estoy muy agradecida. No quiero molestarte más.»
«No es molestia. Es cuidado.»
O Pablo, era o seu nome, conhecia o médico de serviço num hospital próximo. Deixou-me na companhia do seu amigo médico e saiu para falar com o polícia de serviço; queria apresentar queixa. Fizeram-me uma radiografia e no final ele tinha razão – não tinha qualquer fractura, apenas dor pelo esticão.
O médico, amigo do Pablo, acompanhou-me até à sala de espera. No caminho contou-me que tinham trabalhado juntos, experiência que adorou. Ansiava por mais uma oportunidade para voltar a trabalhar com ele – era um excelente fisioterapeuta.
Quando chegamos cá fora dei de caras com o Ricardo à conversa com o Pablo. Como terá descoberto que estávamos ali? Quando me aproximei, o Pablo afastou-se ao encontro do médico; provavelmente queria deixar-nos mais à vontade para falar. Era tudo o que não queria – falar com o Ricardo.
«Elena estás bem?» – parecia preocupado e ao mesmo tempo culpado.
«Podia estar melhor!» – fui ríspida com ele; procurei não manter grande contacto visual, demonstrava-me mais atenta à amena cavaqueira do Pablo com o médico – «O que é que estás a fazer aqui? Como é que soubeste que estava aqui?»
«Eu… eu vim assim que soube. Nunca me perdoaria se te tivessem feito algum mal!»
(risos irónicos) «Desculpa! Algum mal? Os males físicos são os mais fáceis de se ultrapassar – pelo menos os males que os outros nos podem fazer! Como é que soubeste?»
«Fui eu que lhe liguei. Não sabia que falavas português?!» – o Pablo surpreendia-me mais uma vez – «Falas muito bem português!»
«Não sabias que ela fala português? É a língua dela!»
«Alguém falou contigo?»
(surpreso com a dureza na voz) «Estás bem?»
«Sim Pablo, estou óptima. É só dor… o braço não tem qualquer fractura, como disseste. E tenho duas línguas maternas, porque nasci em Portugal e fui muito pequena para a Argentina. O meu pai é mexicano e a minha mãe portuguesa… sempre se falou as duas línguas em minha casa.»
«E falas castelhano quando estás stressada?»
(sorri) «Provavelmente! E tu?»
«Comigo foi ao contrário. O meu pai é brasileiro e a minha mãe é uruguaia. Conheceram-se na Argentina e vieram viver para Portugal pouco depois do meu nascimento. Em minha casa também se falava as duas línguas.» – sorriu – «Desculpa, avisei o Ricardo… bem, pensei que seria o que querias que fizesse.»
(sorri) «Não… como é que sabias?» – esboçou uma interrogação facial – «O Ricardo? Como sabias… o contacto; enfim, porquê ele?»
«Porque és minha namorada!»
«Sou? Fiquei com a impressão que ela era loira! Se calhar, foi uma ilusão de óptica. Vai-te embora! Não te quero aqui. Não preciso de ti aqui!»
«E tu? Para onde vais? Não tens onde ficar. Com o braço nesse estado, nem conduzir podes. Deixa de ser teimosa!»
«Desaparece!» – a expressão devia ser dura, a ver pela cara de desespero do Ricardo e de preocupação do Pablo.
«Elena, eu conheço o Ricardo. Trabalho com ele. Sou o fisioterapeuta da equipa. Acompanho-os todos os dias e sei o quanto ele te ama. Talvez fosse boa ideia falarem sobre o que aconteceu hoje. Mesmo que mantenhas a tua ideia, convém que resolvam tudo. Acredita, que as relações mal resolvidas voltam muitas vezes para nos atormentar.»
«Pablo, já está tudo resolvido. Ele fez uma escolha e eu também. Ele escolheu a loira e eu escolhi a morena.»
«Elena, onde vais ficar hospedada? A esta hora não vais conseguir arranjar alojamento.»
Fiquei em silêncio durante alguns segundos e logo me voltei e perguntei:
«Pablo, importas-te que fique contigo?»
«O quê? Não o conheces de lado algum!»
«Conhecia-o ainda menos quando tentaram assaltar-me. E foi ele que me ajudou; ele é que estava lá!»
«Elena, apanhaste-me completamente desprevenido… eu já devia estar a chegar à minha casa de praia. Tinha programado um fim-de-semana lá. Quer dizer, podes ficar em minha casa ou, se quiseres, podes vir comigo.»
«Está tudo louco?!»
«Ricardo, posso falar contigo a sós? Importas-te Elena?»
«Por favor!»
Afastaram-se, falaram quase em segredo e voltaram a aproximar-se. O Ricardo continuava com cara de quem não gostava nada da ideia e o Pablo voltava com um sorriso aberto.
«Ok, eu falei com o Ricardo e ele vai para casa descansar para na segunda-feira voltar ao trabalho a 100% e nós vamos passar um fim-de-semana na praia. Temos que ir buscar a mala ao teu carro. Se não te importares, ele leva-o para casa dele; para não ficar na rua sujeito a algum incidente e vamos lá buscá-lo quando voltarmos no domingo à tarde. Pode ser?»
«Pensaste em tudo!» – fomos ao parque de estacionamento, tirei a mala de viagem, paguei o estacionamento e dei a chave ao Ricardo – «Cuida bem dele! Até domingo.»
Entrei no carro e deixámos para trás um Ricardo muito aborrecido. Durante alguns minutos estivemos em silêncio. Eu queria pedir-lhe desculpa por tudo e não sabia como começar. Forcei a minha presença na sua vida como se fosse dona dela. Impingi-lhe a minha companhia como se fosse obrigação dele cuidar de mim. Nunca tinha sido tão descuidada com alguém; nunca desrespeitei assim uma pessoa tão simpática. Ele ajudou-me tanto e de uma forma tão desprendida que me senti à vontade para abusar – primeiro do abraço, depois da atenção e agora do espaço, da vida dele. Que anormal!
«Tens a certeza?»
(estremeci de susto) «O quê?»
«Assustei-te? Desculpa.»
«Sim, estava a pensar»
«No Ricardo?»
«Não!»
«Então?»
«Olha, nem sei como te dizer!»
«Haaa, com a boca. Se a usares é capaz de resultar!»
(risos) «Vejo que és especialista a quebrar o gelo!»
«Hum, sim tenho um bom picador!» – tinha a expressão de um reguila.
(risos) «Pablo, quero pedir-te desculpa. Sei que já é para aí a centésima vez que o faço hoje.»
«Sim, a primeira vez foi no restaurante, quando recuaste depois de ver o Ricardo com a loira.»
«Foi?»
«Foi. Tu não me viste. Deste-me um cotovelada no estômago e, sem olhar, soltaste um “Perdón”. Por isso pensei que não falavas português.»
«Humm!» – fiquei em silêncio – «Nós já não estávamos bem há algum tempo.» – mais um silêncio – «Nunca pensei encontrá-lo com outra mulher; mais uma gota num imenso oceano de desencontros constantes.»
«Tens a certeza que não queres voltar para te entenderes com ele?»
«O quê? Desculpa, mais uma vez em off.»
«Tudo bem. Tens a certeza que queres ir comigo?»
«Tenho. Certeza absoluta. Seria pior se ficasse com ele. Provavelmente iria acabar por dizer coisas que não sinto; posso até pensar, todavia não sinto. Seria um fim-de-semana horrível para mim e para ele.» – pausei por dois segundos – «Tenho que te pedir desculpa por tudo isto. Estou a impor a minha presença, a minha companhia. Não és obrigado a isto. Mal me conheces. Já te atrasei a viagem com aquela cena da tentativa de furto e agora ainda me carregas às costas… desculpa.»
«Exactamente por isso é que tens a obrigação de vir comigo!»
«Como?»
«Ah pois é! O mínimo que podias fazer depois de me atrasares a saída é vir comigo para me fazeres companhia durante a viagem.» – riu – «Agora a sério, é um prazer ter-te como copiloto. Digamos que és uma óptima companhia.»
(risos) «Ah sim. Óptima, comecei por te dar uma cotovelada no estômago, caí-te em cima, ranhosei o teu casaco todo, tive uma consulta à borla com o melhor fisioterapeuta da actualidade e ainda te carreguei para o hospital… sim, óptima companhia!» – durante uns minutos só se ouviram gargalhadas.
Devo confessar que aquelas gargalhadas caíram mesmo bem. Foi quase um lavar de alma. Estava a precisar de rir. Senti-me mais leve, mais solta, mais capaz de levantar a cabeça e pensar em tudo o que tinha acontecido de uma forma mais fria, mais desprendida de mim mesma. Será que sou capaz?

Excerto de conto “A lo mejor, te quiero!“, parcialmente publicado no número 8 da revista d’autor.

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