Como uma sentinela!


Aceitei o desafio sem pensar.
Ainda hoje não sei como o fez. As palavras dele ficaram gravadas em mim.
Quando acordei, mais uma vez sem pensar, senti cada músculo a esticar numa longa espreguiçadela.
Levantei-me e fiz o que era habitual desde que tinha ali chegado… vesti uma camisola e saí do tipi – baixei-me e saí quase de gatas. Senti o joelho a gelar pelo contacto com a madeira de suporte do tipi… é uma madeira áspera; lembro-me de pensar que poderia rasgar o joelho, se não tivesse cuidado.
A verdade é que logo de seguida estava a recriminar-me por aquela estupidez. Já tinha saído do tipi tantas vezes sem qualquer cuidado e nem sequer tinha raspado o joelho e naquele momento estava com medo.
Assim que passei para o outro lado, senti os meus olhos a fechar, tal era a força do sol. A tenda não é escura, a verdade é que a luz é mais forte e quente fora dela. O calor era suportado com a ajuda da brisa fresca que me revirava o cabelo.
Desci do tipi e ouvi-me a desbravar o caminho de terra que me conduzia até ao wc comum, mais abaixo.
Quando entrei no wc, senti o eco do vazio e o medo dos wc públicos…
Como sempre, antes de tomar banho, dirigi-me ao lavatório para lavar a cara com água fria, uma vez que acordo sempre com os olhos colados pela remela. Abri a torneira e a minha mão, aquecida pelos cobertores da noite, gelou ao tocar o inox desprotegido.
Aquele choque térmico só deixou de ser real quando coloquei as mãos debaixo da torneira. Senti a água a abraçar-me as mãos. Na concha delas levei a água fria até à cara. Aí senti a água gelada a provocar a remela que me cerrava os olhos e a arrepiar-me a pele quente da face.
Com a toalha sequei a pele e removi os últimos resquícios de remela. Devo ter estas sensações todas as manhãs, se bem que nunca as tinha sentido assim.
Os dias seguintes foram mais ou menos o mesmo; a diferença é que a cada dia surgia uma nova sensação ou mais nítida, não sei bem! A verdade é que me sentia cada vez mais confiante nos passos que dava e muito mais consciente de tudo o que fazia.
No terceiro dia decidi passar a tarde na piscina. Pensei que à tarde estaria vazia, devido às actividades do Eu. A verdade é que encontrei o Aiko na piscina com uma mulher.
Fiquei na dúvida se devia aproximar-me deles ou voltar para o tipi. Fiquei com medo de interromper alguma coisa, até porque ele estava tão próximo e concentrado no corpo dela. Ela apenas flutuava enquanto era mimada por ele.
Poucos minutos depois percebi que estava escondida, por entre arbustos e árvores, a observá-los juntos. Que estupidez, pensei.
Fui para a biblioteca, se bem que fui pelos tipis para evitar passar junto à piscina. Como, para voltar aos tipis tinha que descer, do outro lado tive que subir um monte. Sentia a terra a mover-se por baixo dos pés. Toda eu tremia! Não sei se por medo de encontrar uma cobra ou de rebolar monte abaixo e, mesmo assim, subi-o sem hesitar.
Quando finalmente cheguei à recepção do Eu, bufava! Não sei muito bem porquê, mas senti a minha respiração a abrandar quando vi o Aiko a dirigir-se para o wc comum e a mulher que estava com ele a subir para os quartos. Sentei-me na esplanada da biblioteca a sentir o sol e a brisa a disputarem a minha atenção.
Alguns minutos depois ouvi uma voz feminina a dizer a outra para experimentar a massagem dentro de água. «É maravilhoso! Aquele homem tem umas mãos!» Parecia ter uma mola debaixo do rabo. Levantei-me rapidamente e fui para a piscina.
Sentei-me na berma desta e deixei a água cobrir-me os gémeos. A piscina está protegida do sol por várias árvores. A sombra é muito agradável! Ali perdida no vaivém das árvores, lembrei-me pela primeira vez do Diego.
Pedi-lhe para não me ligar enquanto estivesse no Eu. A verdade é que começava a sentir necessidade de ouvir a voz dele. Foi muito compreensivo quando lhe disse que precisava de estar sozinha para voltar a ser eu mesma… só não sabia como era ser eu mesma!
«Olá.»
«Aiko! Que susto!»
«Não estavas cá! Desculpa se interrompi…»
«Não, não… estava a pensar no Diego. Só isso!»
«Diego?»
«Sim, o meu namorado.»
«Ah! Estás com saudades dele?»
«Sim, pedi-lhe para não me ligar enquanto estivesse cá e ele tem cumprido, se bem que estou com saudades de falar com ele.»
«Porque não lhe ligas?»
«Prometi a mim mesma não ter contacto com as pessoas que deixei quando vim para cá. Estou em dívida para com elas…»
«Porquê?»
«Por causa da forma como as tenho tratado nos últimos tempos.»
«Como é que as tens tratado?»
«Como se não gostasse delas. Afastei-me de toda a gente e tenho andado com pouca paciência para estar com elas. E o Diego…»
«O que tem?»
«Tem aguentado tanto. Se não fossemos tão amigos, acho que já tinha acabado a relação comigo. A verdade é que ele sabe que não sou assim.»
«E como és?»
«Pergunta complicada!»
«Porquê?»
«Porque…» – esperou pela minha resposta e ela não chegou. Sentou-se na berma da piscina e mergulhou os pés na água.
«Essa pergunta é complicada para toda a gente. É muito difícil saber quem somos na realidade. Somos seres complexos e por isso é necessário a observação pessoal – como uma sentinela de nós mesmos. Assim, podemos perceber quem somos.»
«Foi por isso que me disseste para fazer aquele exercício?»
(sorri) «Como tem corrido?»
«Bem, penso eu! Pelo menos tenho conseguido manter-me atenta nessa parte do dia.»
«Foi por isso que te pedi para o fazeres. A meditação consiste nisso… na atenção desprendida de todos os nossos sentimentos, pensamentos, sensações e actos.»
«Estás a dizer que estive a meditar?»
«Estou a dizer que a meditação tanto pode ser feita sentada, quieta e em silêncio como em pé, em movimento e a falar. A verdade é que se torna mais difícil se estiveres a fazer algo que te obrigue a pensar. Por isso, no relaxamento final procura-se fazê-lo de forma silenciosa e imóvel, para se habituar à meditação e daí treinar com momentos dinâmicos.»
«Que estranho! Sempre pensei que tinha de ficar ali, quieta e em silêncio, para meditar!»
«É o que a maior parte das pessoas pensa. E o que tens sentido desde que começaste a fazer o exercício?»
«Parece que estou mais atenta ao que sinto. Ainda hoje percebi isso.»
«Com quê?»
(hesitei) «Hoje aborreci-me sozinha e pensei que estava a tremer por um motivo, mas na realidade estava a acontecer por outro.»
«E como é que percebeste isso?»
«Quando me senti a acalmar… percebi que não se tratava de um, mas de outro. Achas possível?»
«É possível e pode acontecer mais vezes do que imaginas. Com o tempo começas a ter mais consciência de tudo e esses momentos de ilusão diminuem.»
«Ainda bem!»
«E tem ajudado em mais alguma coisa?»
(risos) «Só se for na preparação para o choque térmico!»
«Choque térmico?»
«Sim, como agora sei que a torneira está fria e a água vai guerrear com a minha remela e gelar a minha pele quente logo que encho as mãos com água gelada e a levo à face…»
«Ah, ok! Choque térmico!» – rimos durante algum tempo e, quando o riso aliviou, o Aiko disse: «Procura não condicionar as tuas acções com as tuas memórias sensoriais. Procura viver cada experiência como se fosse a primeira. É difícil, se bem que vais ver que cada uma vai parecer-te mais prazerosa.»
«Não sei como! Acordo sempre com a esperança de sentir um choque térmico menor ou com menos remela.»
«Por isso mesmo! Estás a acordar com uma sensação negativa em relação ao acto de lavar a cara. Como podes esperar sentir menos frio ou ter menos remela, se estás a pensar no que não queres? Deves concentrar a tua atenção no que o teu corpo está a sentir quando acorda… mantém a mente no presente, no agora, mesmo que tenhas recordações das sensações do passado ou esperança nas do futuro. Fiz-me entender?»
«Sim… mais ou menos.» – a confiança foi maior nas últimas palavras – «Quem sabe, quando acordar, percebo melhor!»
(sorriu) «Quando acordares? Com certeza!»
Ficamos ali sentados durante horas na conversa, em silêncio, às gargalhadas ou em tom sério. Simplesmente na companhia um do outro.
Na manhã seguinte acordei com um sorriso na cara. Dormi a noite toda, sem sobressaltos e interrupções. Ao espreguiçar-me senti os membros a soltarem-se do peso… senti as pernas a ficarem mais leves. A contracção das minhas costas libertou uma energia boa, leve e estimulante. Há muito tempo que não sentia tanta vontade de sair da cama.
Levantei-me, vesti a camisola… nesse momento apercebi-me que a minha camisola de anos tinha um toque suave, agradável e reconfortante.
O que me surpreendeu mais foi a forma como saí do tipi. Nos dias anteriores pousava o joelho no chão. Naquele dia não o fiz. Foi inconsciente aquele movimento. Foi natural! Passei uma perna, deixando o peso do corpo todo na outra perna. Quando pousei o chinelo na parte de fora do tipi, movi todo o peso para a perna de fora e passei a outra. O meu tronco aninhava-se entre os joelhos.
O sol voltou a provocar a contracção dos músculos da minha face, os olhos mantiveram-se fechados, se bem que conseguia sentir a pele toda encolhida. Parecia que queria esconder os olhos debaixo da pele do rosto.
Lembro-me de rir quando pensei que se alguém me visse naqueles preparos seria bonito! O Diego, com certeza, diria que parecia uma velha rabugenta!!!
Ri o caminho todo até ao wc. Quando lá cheguei, olhei-me ao espelho por cima do lavatório e quase não me reconheci. A minha pele estava luminosa, os olhos já estavam mais abertos do que o habitual e a água que passei pela face só veio avivá-los mais.
Durante alguns minutos fiquei a observar-me ao espelho. O Aiko tinha razão. Quando vivemos as experiências como se fosse a primeira vez, tudo parece diferente. Pela primeira vez não pensei no “choque térmico” e a água parecia mais quente que nos dias anteriores. Até a remela parecia ser em menor quantidade, tal foi o pouco esforço para a diluir.

Excerto de conto inédito, Como uma sentinela!

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