A lo mejor, te quiero! (2)


Alerta! Alerta! Decote à vista! Nossa, são perfeitas!
«Ontem as minhas bichinhas estavam impossíveis!»
Eu é que te apertava as “bichinhas”!
«Estavam loucas! Da cozinha para a sala… o corredor parecia uma pista de corridas. O meu namorado passou-se; atirou-lhes um chinelo e acertou em cheio na bichinha!» – risadas.
«Ele é que precisa de levar com um chinelo em cheio na testa.»
«Oh, elas não podem fazer o que querem!»
(sorriso irónico) «Não sei se sabes, as crianças também correm! Vai atirar-lhes um chinelo, quando tiverem filhos?»
«Que comparação! Oh Elena, tu não bates bem!»
(encolheu os ombros) «O namorado é teu; tu é que sabes!»
Como estudante de veterinária e apaixonado por animais era impossível não concordar com a outra morena. O decote não era tão pronunciado e ainda bem! Isso fez-me olhar para ela. Era bem mais gira do que a outra. Uma tinha um corpo poderoso; a outra tinha uma luz… era impossível não ficar agarrado a ela. Saiu na estação anterior à minha.
Bem, quando percebi que vivia por perto, a minha cabeça começou logo a delinear uma estratégia para a abordar assim que voltasse a cruzar-me com ela. Ainda não tinha subido as escadas rolantes e já tinha pensado em tudo.
Quando cheguei a casa, decidi correr no passeio marítimo. Vesti uns calções, calcei as sapatilhas e peguei no meu i-Pod, pronto para uma corrida desenfreada e sem destino.
Mal podia acreditar quando, já no passeio marítimo, vejo novamente aquela luz maravilhosa a caminhar em direcção a mim. Naquele momento congelei. E que tal lembrar-me da estratégia magnífica que tinha delineado? Ya, pois! Lembraram-se vocês? Eu não! Enfim, passei por ela como uma flecha. E foi aí que o destino me pregou uma partida! Aquele passeio é em madeira, ripas de madeira para ser mais exacto, desniveladas – é isso mesmo que estão a pensar, tropecei numa dessas ripas e caí desamparado no chão, um metro – se tanto – atrás dela. Logo olhou e correu para me socorrer.
«Estás bem? Magoaste-te? Deixa, eu ajudo-te.»
«Oh, obrigado!» – e esfreguei a testa.
«Sentes-te bem? Vem, tem ali um banco.»
O que recordo mais daquele momento é o toque da sua pele, o aroma a cacau que exalava e o ambiente – o sol quase a recolher-se, o mar simplesmente delicioso a acariciar suavemente o horizonte, uma brisa subtil. Destino, só pode ser o destino a fazer das suas! Enfim, penso que já perceberam o que aconteceu. Perdi-me de amores e felizmente fui correspondido.
A dada altura fui convidado para jogar numa equipa da primeira divisão de voleibol. Fiquei sem saber o que fazer. Toda a minha vida esperei uma oportunidade destas. Como poderia recusá-la? E como poderia abandoná-la? Mudar de faculdade e de cidade era fácil. Agora, mudar de mulher? Andei durante dias a adiar a conversa com ela. Ela percebeu.
Convidou-me para jantar em casa dela; preparou um jantar romântico, a dois, com tudo o que eu mais gosto. Pôs-se toda bonita! Quando a vi pensei: que mais posso eu querer? Senti-me incomoda-do com aquela atenção toda…
«Elena…»
«Sim…» – como lhe digo isto? – «Rico… Ricardo! Estás bem? ¿Qué pasa cariño?»
«Tenho uma péssima notícia para te dar.»
«Então, diz lá o que se passa.»
«Fui convidado para jogar numa equipa da primeira divisão.»
«Tonto! E isso é péssimo? Parabéns!» – abraçou-me e beijou-me.
(afastei-a) «É noutra cidade; centenas de quilómetros entre nós… não posso aceitar!»
«Não podes o quê? Estás doido? É claro que vais aceitar!»
«E tu? E nós? Como posso deixar-te aqui?»
«Confia! O que tiver que acontecer, acontecerá naturalmente.»
Ela tem outro! Só pode! Por que outro motivo quereria ver-se livre de mim? Senti o toque dela… parecia querer afastar aqueles pensamentos.
«Te quiero Rico.» – aproximou os lábios do meu ouvido – «Tú eres mi vida. Quiero que seas feliz. Eso es muy importante para mi.»
Esqueci-me totalmente do que pensava. Adoro quando me fala assim.
«Te quiero preciosa.» – calei-me, falava mais portunhol que outra coisa; sorri – «Como sabes falo muito bem esta língua.»
«Muito bem mesmo!» – sorriu – «Amo-te, por isso quero que cumpras os teus sonhos. Só assim conseguirás ser feliz. Quero ao meu lado um homem que luta pelos próprios sonhos. Depois logo se vê.»
«Logo se vê o quê?!»
(sorri) «A distância tonto!»
«Ah ya!» – não me parece.
«A distância não é assim tão grande e não será para sempre. Muita coisa pode mudar em dois ou três meses. Acredita em nós!»
Abracei-a e, com um beijo apaixonado, entramos numa noite inesquecível. As coisas que esta mulher sabe!
Num ápice chegou a hora de nos separarmos. Sempre que podia, voltava para a ver. O mesmo acontecia com ela. Sempre que podia, juntava-se a mim. Com o passar dos meses, essas visitas foram diminuindo – não sei porquê; surgiam sempre entraves para um novo encontro.
Enfim, a minha vida não é fácil e, mesmo assim, ela conseguia sempre dar a volta aos obstáculos que surgiam. A verdade é que nos últimos tempos também ela começava a colocar problemas para me visitar ou para eu a visitar. Houve semanas em que não nos vimos; a relação começou a arrefecer.
A certa altura convidei-a para passar o fim-de-semana comigo, longe de todos. Um amigo sugeriu-me uma breve viagem pelas praias ali à volta. Queria namorar um bocadinho. Ela disse que não podia. Estava com muito trabalho e não podia ausentar-se.
Fiquei furioso com ela. Perdi a cabeça. Fiquei mesmo furioso por me estragar a surpresa. Senti-me indesejado – esse sentimento não me deixou pensar e reconhecer que muitas vezes fez o impossível para estarmos juntos.
Só pensava que estava a dificultar o nosso reencontro. Fiquei tão furioso que borrei a pintura toda. Magoei-a de uma forma estúpida e infantil. E mais ridículo é que tudo aconteceu por birra – a estupidez natural de um puto com a mania.
Tanta mania que podem imaginar a minha cara quando a recepcionista me entregou aquele papel. Pensei em tudo, menos no que era de verdade. Era uma mensagem curta: “Estou lá fora. Elena”. Olhei incrédulo. A pobre mulher viu o desespero no meu olhar. Confirmou com a cabeça. Pedi licença e saí atrás dela.
«Entrou? Onde está?»
«Entrou e saiu logo de seguida. Parecia não saber o que fazer. Primeiro ia sair, depois voltou atrás e ficou ali sentada. Parecia triste. Quando a abordei, apenas me pediu para lhe entregar esta mensagem. E saiu.»
Ela sempre veio. Por isso me ligou tantas vezes. E eu a fazer birra. Passei titubeante pela recepção. O que é que lhe vou dizer? Ela deve estar furiosa. Não me lembrava de qualquer explicação para aquilo. Saí com um olhar de susto misturado com vergonha pela porcaria que tinha feito. Porra!
«Princesa, que estás aqui a fazer? Pensei que não vinhas.» – tentei disfarçar.
«E não vinha…» – quase não a ouvi; tinha a voz embargada.
«O quê?»
«Ainda bem que vim!» – tinha os olhos encharcados.
«Amor, não é o que parece.»
«O quê? O que é que não é o que parece?»
«Seja lá o que tenhas visto, não é o que parece!»
«Havia alguma coisa para ver?»
«Elena, sei que não é desculpa…» – respirou profundamente, ajeitou a posição da cabeça e continuou a olhar-me fixamente, enquanto as lágrimas deslizavam pela face – «Os meus colegas andaram durante meses a chatear-me a cabeça para sair com eles. Estava tão furioso contigo, que nem pensei. Depois? Depois fiz porcaria da grossa!»
«Espera! Não percebi! Queres dizer que sempre que discutimos…»
«Não! Nunca tinha acontecido! Olha…» – como vou resolver isto?
«Estou a olhar!»
«Te quiero preciosa!»
(sorriu) «Imagina que tinhas sido tu a entrar num restaurante e eu estava agarrada a outro homem… o que farias?»
«Matava-o! Levava-te para casa!»
«Tu?! Nem o matavas nem me levavas para casa. Fazias um enorme escândalo e na primeira oportunidade agarravas-te a uma qualquer para provares que és macho e que ninguém te troca por outro. Tu é que controlas!»
«Eu…»
Não sabia o que lhe dizer. É verdade! Não sabia! Ela tinha razão para estar furiosa. E eu não tinha qualquer razão para a borrada que tinha feito. No início daquela noite convenci-me que ela não queria estar comigo. Agora, só quero conseguir desculpar-me. E como? A distância não era justificação. Eu amava-a; ela era a mulher da minha vida.
Estraguei tudo! Não havia nada a fazer! Aquele olhar frio, magoado e triste fazia-me sentir ainda mais culpado. E agora?

Excerto de conto inédito, A lo mejor, te quiero!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s