Pobres coitados!!!

Eram quase sete da tarde. O sol ainda brilhava no céu límpido e azul. A rua estava vestida de amontoados de pessoas em constante colisão – parecia uma pista de carrinhos de choque, habituais das feiras populares: uns desviavam-se a tempo, outros desculpavam-se em silêncio.
Ao fundo, vi a betinha da minha amiga Mafalda. Ela é vaidosa e aparece sempre toda alinhada. Nem ao vento permite desalinhar-lhe um fio de cabelo que seja. Cada peça de roupa é conjugada na perfeição; os acessórios têm que coincidir; a maquilhagem na medida certa: nem muito nem pouco, a suficiente. Enfim, está sempre impecável!
Combinei encontrar-me com ela para jantar naquele dia. Ainda hoje não percebo o porquê daquela rua. Está sempre à pinha, o que dificulta encontrar alguém no meio daquele mar de gente. Bem, a verdade é que nos vimos e logo procuramos um restaurante ou bar para sentar e pôr a conversa em dia.
Estivemos por horas a falar em trabalho, saídas, homens, família, crenças… a crise e mais trabalho; falamos um pouco de tudo, como sempre acontecia quando nos encontrávamos.
Isso acontecia poucas vezes. Somos amigas, gostamos muito uma da outra, se bem que somos muito diferentes e a maior parte das vezes acabamos por nos desentender. Essas pequenas questões quase sempre provocam alguns meses de afastamento.
Naquele dia foi igual. Contei-lhe que estava cada vez mais perto de fechar um acordo de colaboração entre a empresa onde trabalho e uma empresa chinesa. Isso despoletou a sua veia de certezas deprimentes.
De uma rajada só lançou um chorrilho de acusações, lembrando o horror que sentia sempre que ouvia falar da forma desumana como eram tratados os trabalhadores na China. Durante vários minutos criticou todas as empresas que trabalhavam com os chineses e que o nosso grande problema – do ocidente – era não termos qualquer respeito pelos “pobres coitados dos chineses que recebem apenas um prato de comida por dia em troca de 12 a 16 horas de trabalho diário”.
Sabem como consegui que terminasse a conversa? Simples! Virei a minha atenção para a “carteira giríssima” que ela trazia. Logo me adiantou que tinha custado uma bagatela e que tinha o tamanho certo para transportar tudo o que precisava – “assenta-me muito bem no ombro; parece que foi feito à medida”. De tão histérica que estava com a carteira, nem hesitou em responder quando lhe perguntei onde a tinha comprado – numa concorrida loja de chineses.

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