Ouve com a alma!


A minha Albertina… tenho tantas saudades dela! Sempre que sinto falta dela, venho cá conversar um bocadinho com ela. Ela cansa-se muito depressa, por isso as conversas são curtas e maravilhosas. Ela sentiu muito a minha partida. Está muito cansada, esquece-se facilmente das coisas e de vez em quando não reconhece as pessoas… se bem que a mim ela reconhece sempre. À Núria também e ao José. Ela vai lá todos os dias e ele está sempre com ela a mimá-la com todos os cuidados.
A casa está quase na mesma. Só não tem os miúdos a correr numa grande gritaria. A minha querida Albertina com o seu lindo cabelo cinza, continua sentada na poltrona onde todos os dias me ouvia a ler Pessoa.
O José continua a ter muito cuidado com a sua aparência. Ela sempre gostou de se vestir bem. Nunca foi vaidosa, se bem que gostava de cuidar da sua aparência e tentava sempre manter uma postura correcta, mesmo quando a vida lhe pesava nas costas.
«Olá pai. Olá avó.»
«Oh, minha querida! Vem cá, meu amor. Dá-me a tua mão.»
A Núria já tinha tomado banho e trocado de roupa. Deve ter vindo directa para cá, porque pouco tempo passou desde que se despediu do Filipe na praia. Ela aproxima-se com cuidado e, depois de se sentar junto da Albertina, dá-lhe a mão.
«Dê-me cá um beijinho, sua marota!» – ela adora brincar com a avó.
«Sim, sim… eu gosto muito… eu quero um beijinho!»
«Oh vó, quem não gosta de beijinhos! Diga-me lá, o que é que tem feito, para além de tomar conta do meu pai e da minha mãe?»
«Olha, parece que hoje vou passear com a minha netinha preferida!»
«Pois, pois… também pudera, sou a única! E onde é que quer ir hoje? A algum sítio especial?»
«A tua casa. Ainda não me levaste lá. Quando é que vou conhecer a tua casa?»
«Oh vó!!!»
«Núria, o que é que se passa?»
«Nada pai… nada.»
«Eu conheço-te. Desembrulha! O que é que se passa?»
«Olha, não consegui colocação e o ginásio fechou. O gerente desapareceu e ninguém sabe dele. Nem a família. Por isso, não sei por quanto tempo será minha… a minha casa!»
«Oh filha, não te preocupes, tudo se há-de resolver.»
«O que é que se vai resolver?»
E pronto, chegou o furacão da casa… furacão Lúcia em acção. Ui e vem acompanhada pelo Lucas e pelo Miguel.
«Núria, aqui? Não devias estar a trabalhar?» – Miguel sempre oportuno.
«Não.»
«Oh irmã tem cuidado que ainda te despedem!»
«Tens tanta piada que até irrita!»
«Quando é que me vão responder à pergunta que fiz?»
«O quê?»
«O que é que se vai resolver?»
«Olha, parece que o gerente do ginásio desapareceu e deixou toda a gente sem emprego, numa altura em que a Núria também ficou a saber que não teve colocação.»
«O quê?» – que drama – «Como é que tu vais pagar a casa agora? Não podes contar comigo e com o teu pai, porque nós já estamos muito velhos para arcar com as tuas despesas! Ouviste?»
«Não te preocupes. Não preciso que tu e o pai se responsabilizem pelas minhas dívidas, afinal sempre fui capaz de o fazer sozinha. Certo?»
«Quero ver, quero! Tu pensas que andam para aí empregos a cair do céu! Eu avisei-te que não era boa altura para comprares a casa. Podias ter continuado cá em casa e não seria preciso agora estares nesta situação. Tás a ver José… é nisto que dá apoiar as ideias peregrinas da tua filha!»
«Oh mulher acalma-te!»
«Acalmar-me!? Eu quero ver no que isto vai dar! Quero, quero!»
«Queres saber no que isto vai dar? Simples, hoje de manhã recebi duas propostas que me resolvem este problema. Primeiro, passo a ter um inquilino e, segundo, passo a trabalhar numa coisa que me agrada muito. Como vês, não preciso de ti ou do pai para pagarem as minhas dívidas! Mesmo assim, muito obrigado pela oferta.»
«Espera! Tu vais ter o quê? Tu vais ter um inquilino? Meu Deus, esta rapariga anda louca! Então, tu vais meter uma pessoa que não conheces em tua casa?»
«É uma pessoa de confiança, que quer alugar um quarto e eu achei boa ideia partilhar a minha casa com ele.»
«Ele?»
«Oh Miguel, não te metas por favor!»
«Não me meto. Então, a minha namorada vai viver com um gajo e não queres que me meta no assunto! Tás louca?!»
«Como tu mesmo dizes, não há perigo. Segundo as más-línguas, ele é gay!»
«Eu não acredito! Tu vais viver com aquele gajo! Com aquele…»
«Muito cuidado com o que dizes! Como tu sabes, eu detesto que se metam na minha vida, se bem que detesto ainda mais que falem mal de alguém que não está presente para se defender, caso entenda fazê-lo!»
«Oh filha, então é o Filipe que vai alugar o quarto? Isso é muito bom! Fico muito mais descansado por ser ele. É bom rapaz e assim sempre pode proteger-te em caso de perigo.»
«José, foi graças a esses apoios que ela ficou na situação em que está… como é que podes aceitar que tua filha viva com aquele homem, quando está noiva do Miguel?!»
«Alto lá, noiva o caraças! Eu não estou noiva de ninguém. Nem estou a pensar casar. E da mesma forma que vou trabalhar com ele, posso viver na mesma casa. Afinal, só vamos partilhar a sala, a cozinha e quando muito o escritório. O quarto de dormir e o quarto de banho são diferentes.»
«Ai filha, desculpa lá, mas eu não fico descansada… não consigo, qualquer dia chegas a casa e não tens nada. Aquele pessoal é do piorio, estão à espera do momento certo para enganar, roubar e, quem sabe, matar.»
«Percebo! Mãe, se vais continuar por esse caminho avisa-me já… prefiro sair antes, porque não te admito que fales do Filipe dessa forma. Ele é o meu melhor amigo, foi o único a estender-me a mão nos momentos em que mais precisei e nunca me exigiu nada em troca. Por isso, guarda os teus preconceitos para ti… eu nem quero sequer pensar no que vai dentro da tua cabeça, quanto mais ouvir o que tens para dizer. Bem, tenho que ir! Pai, eu depois ligo. Avó, eu prometo que volto cá para a levar a conhecer a minha casa. A verdade é que agora o ar nesta casa está irrespirável.»
A Núria tinha os olhos cheios de água. Acarinhava a minha Albertina, tentando compensá-la pelo barulho, pela discussão e pelo adiamento do passeio que estavam a combinar. Nesse momento, aproximei-me da Albertina e sussurrei um poema do saudoso Ricardo Reis, que ela repetiu sem gaguejar, olhando bem dentro dos olhos da nossa netinha, enquanto lhe enxugava as lágrimas.
«Núria, minha querida, vive a tua vida. Olha, “segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias. A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos. Só nós somos sempre iguais a nós-próprios. Suave é viver só. Grande e nobre é sempre viver simplesmente. Deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses. Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode dizer-te. A resposta está além dos deuses. Mas serenamente imita o Olimpo no teu coração. Os deuses são deuses porque não se pensam”.»
A Núria tinha muita dificuldade em perceber estas pequenas mensagens que lhe enviava pela avó, mesmo assim hoje sinto que percebeu o que pretendia dizer. Sorriu para a avó, segurou-lhe as mãos bem forte e deu-lhe um beijo longo na face.
«As suas conversas com o nosso amigo invisível continuam a resultar!» – e piscou-lhe o olho.

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