29.Dezembro.2002


«Vieste de vez?»
«Sim! Agora, é meter mãos à obra! Literalmente!»
«Ei! Isso é só em Janeiro.»
«Eu sei, se bem que há muita coisa a fazer por aqui antes dos homens chegarem. Quero limpar a casa principal toda. Tirar tudo que possa estragar-se e colocar no outro edifício, quero proteger os móveis das obras. Para além de fazer um plano de negócios mais elaborado. À partida consegui um empréstimo…quer dizer, não sei! A verdade é que quero planear tudo ao mínimo pormenor. Percebes? Isto tem que dar certo. Já basta o que aconteceu.»
«Está complicado, com os teus pais?»
«Põe complicado nisso! Toda a gente pensa que fugi das minhas responsabilidades. Vêem-me como um criançola, sem responsabilidade alguma, mimada e que nem quis saber dos sentimentos do Nuno. Não é verdade! Sei que fiz as coisas da pior forma; afastei-me à procura de uma solução para esta quinta e encontrei uma vida. Algo que não tinha.»
«Ter até tinhas. Só insistias em não a viver.»
«Ai. Pareces a minha irmã a falar! Fogo!»
«Assim não sentes tanta falta dela!» – piscou o olho.
«É tão maluca! Ofereceu-me um livro no natal e obrigou-me a lê-lo antes de vir para cá de vez. Precisas perceber que raio fazer com a tua vida, palavras dela!»
«Que livro?»
(puxei o livro da estante e dei-o para a mão) «É um livro sobre intimidade, algo que ela diz ser parte integrante do amor.»
«E que tal?»
«Senti-me a ser questionada a cada palavra, a cada frase, a cada página. Acabei por entender que a intimidade com o outro nasce na intimidade pessoal. Até tenho vergonha de dizer isto…»
«O quê?»
«Sempre descurei os meus sentimentos, as minhas vontades, os meus pensamentos… enfim, recusei a mim mesma a intimidade que implorava aos outros! E agora sinto-me culpada por ter feito as coisas da forma que fiz.»
«Queres voltar atrás?»
«Nem pensar! Eu sinto que poderia ter feito de uma forma mais controlada, sem tanta mágoa, sem tanto conflito.»
«Rebeca, ainda é cedo! É tudo muito recente. Acredito que daqui a uns tempos, com calma, vais conseguir perdoar tudo o que fizeste. Também o Nuno vai acabar por perdoar. Vai ser difícil a tua adaptação a esta nova vida, Ele também vai precisar de tempo para perceber que a vossa relação já tinha dado o que tinha a dar. E quando esse dia chegar, vais libertar-te dessa culpa que te queima o pensamento. Aí, vais perdoar-te e seguir em frente. Seja como for, quero que saibas que estou aqui para te ajudar, no que for preciso. É estranho; sinto que somos amigos há décadas.»
«Sim, é estranho mesmo. Sinto o mesmo! Parece que nos conhecemos antes de nos conhecermos efectivamente.»
«É! É difícil explicar.»

Excerto de romance Cor-de Amor!

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