Sou Amor!


I

A sua face iluminada pela luz quente do sol ganha outra força com o esboçar de um sorriso e o expandir do tórax. De olhos fechados, o menino enche os pulmões do aroma do jardim que serve de abrigo aos pássaros que voam de um lado para o outro bem rente à sua janela.
No jardim vê-se arbustos de tamanho médio, flores de todas as cores e animais dos ares a passear de um lado para o outro. Quando abre os olhos, o menino vê a pairar à sua frente uma borboleta colorida.
«Ohhh! Olá princesa! Sonhei contigo esta noite!»
Amor sorri. A borboleta dá duas voltas no ar, enquanto bate com as asas ao ritmo das batidas do coração do amigo.
«Vem brincar comigo, Amor!»
«Espera-me no Jardim da Essência!» – o pequeno ser dos ares beija-o ao de leve no nariz; Amor sorri novamente. – «Encontramo-nos lá!» – a borboleta colorida afasta-se em direcção ao horizonte. Amor apressa a vestir-se.
Irrompe pela cozinha para tomar o pequeno-almoço. Pega num pão, barra um pouco de manteiga e, enquanto dá a primeira trinca, tira um iogurte líquido do frigorífico. Com o iogurte numa mão e o pão na outra, Amor sai com toda a pressa pela porta de trás.

II

Amor empurra os portões dourados que o transportam para o Jardim da Essência. Enche os pulmões com o aroma das flores encantadas pelas borboletas esvoaçantes e flutua nos braços da leve brisa que sacode as árvores mais jovens. Do alto do seu ser, observa as brincadeiras dos cães, gatos e das crianças que se divertem por entre a flora, imitando as pequenas asas coloridas.
Nesse momento, ouve vozes. Com os pés bem assentes no caminho de terra que o leva até ao coração do jardim, vê os seus amigos.
«Roma! Parabéns amigo!»
«Octávio, já te disse que não me chamo Roma! O meu nome é Amor.»
«Ya meu, vou mesmo chamar Amor a um gajo! Que raio de ideia!» – os quatro amigos riem – «Agora vou andar por aí “Oh Amor”. Roma é muito melhor!»
(visivelmente incomodado) «Não percebo porquê! É exatamente a mesma palavra, só que ao contrário.»
«Roma é muito mais forte, potente, mais de homem…»
«E pelo menos não rima com fedor, terror, com…» – avança o Marco.
«Estupor, pavor…» – reforça o António.
«Horror…» – carrega o Rodrigo.
«Pelo menos aprendem palavras novas. A professora de português vai gostar de saber. Mas o meu nome é Amor e não gosto que me tratem por outro nome!»
«Eh pah! Desculpa lá, mas porque é que te deram esse nome?» – pergunta o Octávio.
«Sei lá! Talvez por ser o amor dos meus pais. Nunca lhes perguntei.»
«Não? Porquê? Nunca quiseste saber?» – questiona o Marco, admirado.
«Nunca pensei nisso. Gosto do meu nome. Nunca o questionei. Alguma vez questionaste o teu?»
«Não! Claro que não!»
«Então?»
«Pois, mas o meu nome é de Homem!» – gargalhada geral.
«Ok! Gozem o que quiserem, mas pelo menos chamem-me pelo meu nome.»
«Ok amigo. Não queres que te chamemos Roma. Passamos a chamar-te Amor se conseguires explicar-nos porque te chamas assim.» – diz o Rodrigo.
Amor inspira fundo, olhando em redor. Logo vê a pairar à sua frente a linda borboleta que o convidou para brincar. Fixa o olhar nela.
«Aceita! Tu consegues!»
(enche o peito de ar e confiança) «Ok! Até ao final do dia. Olha, até à festa do meu aniversário no final desta tarde vou descobrir o significado do meu nome e a partir daí vão ter que me tratar por Amor.»
«Estás muito confiante!» – diz o Octávio.
«Ya meu! Não precisas ficar obcecado com isso. Na boa! Se não conseguires, tudo bem!» – continua o Marco.
«Parece que estás com raiva de nós! Não te preocupes meu! Se não conseguires, continuamos a chamar-te Roma.» – diz o António no gozo.
«Tranquilo! Na minha festa de aniversário, hoje ao final do dia.»
Encarava aquela busca como a sua missão de vida. Afastou-se dos amigos e andou pelo jardim sozinho.

III

«Porquê? Porque tenho um nome tão diferente… Amor?»
Ego sorri e, abraçando o filho, responde com um forte e decisivo “Porque és o meu Amor!” – Amor acompanha o sorriso largo do pai.
«Pai, foste tu que escolheste o meu nome?»
«Foi a mãe. Quando cheguei à maternidade, tu já tinhas nascido. A tua madrinha estava lá e, quando a tua mãe me olhou com os olhos cheios de água e me disse que queria chamar-te Amor, aceitei de imediato.»
«Porquê? Porquê Amor? Todos os meus amigos têm nomes como António ou Marco. Eu sou o único Amor! Porquê?»
«Meu querido Amor, tu és o meu único filho. Tu és a luz da minha vida. Tu és parte de mim. Mesmo que tivesses outro nome, chamar-te-ia sempre meu Amor. É o que tu és, o meu Amor.»

IV

«Os teus amigos voltaram a chatear por causa do teu nome?»
«O quê? Os meus amigos…»
«Amor, a directora da tua turma disse-me que alguns dos outros meninos se recusam a tratar-te por Amor. Eu sei que eles estão a»
«Não mãe! Os outros meninos são meus amigos. Eu é que quero saber porque escolheste este nome? Eu sou o único menino que se chama Amor. Porquê?»
«Tu és especial. Tu tens um nome único, porque também tu és único. Tu és parte de mim. Quando vi a tua carinha na maternidade senti um calor no coração que só podia ser Amor. Por isso escolhi esse nome.»
«Então, quer dizer que me chamaste Amor por ser o teu Amor?»
«Sim, com certeza que te chamaria meu Amor, mesmo que tivesses outro nome.»
Amor abraça a mãe e sai em direcção ao jardim, onde todas as manhãs enche os pulmões com o aroma que sente ao abrir a janela do quarto. Tinha tanto medo de lhes perguntar. Receava que se aborrecessem ou que se sentissem magoados.
«Agora é que eles não vão querer chamar-me de Amor! Com esta explicação, vão pensar que estão a dizer que eu sou o amor deles!» – desanimado e cabisbaixo.

V

Amor tira a pequena borboleta da camisola e segura-a gentilmente na palma da mão, enquanto a acaricia com o dedo indicador contrário.
«Oh! Que linda, Amor! Devias libertá-la. Os animais devem andar livres.»
«Eu sei madrinha. Ela é livre de ir quando quiser. Mas hoje ela quer estar comigo.»
«Ah sim!?» – a madrinha sorri – «Tu sempre foste o protector dos animais!»
«Protector? Não. Sou amigo deles e eles gostam de mim.»
«Pois, tu és o Amor, o amor deles!»
(ri) «Oh madrinha!»

VI

«Amor escreve-se com A da alma que tens aqui dentro de ti e ofereces a todos os que se cruzam contigo; com M da magia que fazes quando sorris a alguém; com O de odisseia, as experiências fantásticas por que todos passam quando vivem contigo; e com R de renascimento, que é o que acontece quando entras na vida de alguém.»
«Mas… foi isso que sentiram quando eu nasci?»
«Foi. Pequeno tesouro, quando tu nasceste trouxeste uma nova alma para as nossas vidas, transformando os nossos dias com a magia que só um ser único como tu pode fazer. Cada dia era uma aventura maravilhosa no mundo encantado do Amor. E estas experiências fantásticas fizeram-nos renascer para uma vida mais plena.»
Os olhos do pequeno Amor brilham de emoção. Naquele momento, o seu coração enche-se de luz e calor. Sente-se um afortunado por ter os pais e os padrinhos que tem. Sem eles nunca seria Amor.
«Já percebi! Padrinho, já percebi! Eu sou Amor, porque sou filho do meu pai e da minha mãe e afilhado do meu padrinho e da minha madrinha!» – sorria com todo o seu ser, enquanto a sua linda amiga de asas dançava à volta dele.

VII

O reflexo da face de Amor na janela do carro é constantemente interrompido pela mudança brusca entre a luz e a sombra. Entretido com o aparecer e desaparecer da sua imagem, Amor lembra-se do que lhe disse a pequena borboleta. Sorri.
«O que foi?»
«O quê?»
«Esse sorriso…»
«Lembrei-me do que disseste sobre mudar de ares.»
«E?»
«A mudança de ares, por mais pequena que seja, ajuda a ultrapassar os sentimentos que mexem com as nossas emoções.»
«Verdade. Sempre que vou a sítios novos, sinto-me diferente.»
(sorri) «Quando saí de Destino queria saber qual o significado do meu nome e quando cheguei a Consciência senti-me pequenino por fazer esta viagem por algo que nunca tive curiosidade em saber – tudo porque os meus amigos me gozaram.»
«E agora?»
«Agora percebo que sempre o soube, só não conseguia pôr em palavras.»
«E agora já consegues explicar aos teus amigos o porquê de te chamares Amor?»
«Já! E tudo graças aos meus padrinhos! Adoro-os! Eles são o máximo! Sempre tão compreensivos e pacientes comigo… sempre que aqui venho saio um Amor ainda melhor.» – suspirava apenas para os ouvidos da princesa esvoaçante.
A cidade de Consciência fica para trás e logo surge a cidade de Destino. Quase parecem a mesma, se bem que para Amor são muito diferentes. Quando se aproxima do Jardim da Essência, baixa a janela do carro para sentir o aroma do seu jardim preferido e a companhia colorida, que levou naquela jornada, voa na direcção dos portões dourados.
«Até depois Amor! Vem brincar comigo amanhã! Espero no teu jardim!»
«O meu jardim?! É verdade… é o meu jardim! O Jardim do Amor… o Jardim da Essência do Amor!»

Excerto de conto inédito, Sou Amor!

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