Fiquem em casa!


Vulneráveis!
Confusos!
Ansiosos!
Receosos!
É assim que nos sentimos, nos dias de hoje.
Empurrados para o conforto do nosso lar por um inimigo sem rosto.
Há quem lhe chame guerra.
Guerra ou não guerra, o importante é impedir que se propague. Por isso, é fundamental evitar o contacto social e permanecer em casa.
Todavia, mesmo com o número de infectados ou o número de mortes a crescer de dia para dia, há quem não consiga perceber a importância deste retiro forçado.
Há quem insista em ir até ao parque com as crianças;
Há quem insista em aproveitar os dias mais quentes para ir até à praia;
Há quem insista em encarar estes dias como se fossem férias na aldeia;
Há mesmo quem insista em fazer ou frequentar festas em bares;
Há quem, insistentemente, ponha em causa a própria vida, a vida dos que mais ama e a vida de desconhecidos.
E porquê?
Porquê tanta relutância em se recolher no conforto do seu lar?
Não tenho hábito de ver televisão, mesmo assim tenho acompanhado os canais de informação. Por vezes, falam com as pessoas na rua, principalmente as mais velhas e as mais vulneráveis ao Covid-19, e os relatos que ouvi nos últimos dias são assustadores.
Uma senhora afirma, com toda a convicção, que tem mais de 60 anos, já teve duas embolias pulmonares, tem asma, mas não está preocupada porque está medicada. Um senhor, que está no jardim junto com os amigos de sempre, e diz que quem já esteve na guerra do ultramar não tem medo “disto”, para além de passar a ideia de que os mais novos são cobardes e não querem trabalhar.
Enfim, como estes, outros comentários do género são partilhados pelos canais de informação. O que demonstra um desconhecimento enorme do impacto que este vírus está a provocar e dos grupos de risco identificados pelas entidades competentes. No entanto, pior do que a ignorância é o preconceito estúpido a que se recorre para justificar o injustificável.
Medo disto?!
Parece-me que o Covid-19 veio desmascarar os “corajosos”, que demonstram agora ter medo de permanecer em casa.
E porquê?
Medo de se sentir preso na própria casa;
Medo de estar sozinho (no caso de viver sozinho);
Medo de ser esquecido, entre quatro paredes;
Medo de morrer sozinho;
Medo de enfrentar o maior medo do ser humano, ser social, obrigado a estar em isolamento – medo de enfrentar a solidão que escondem dentro de si!
Perto deste medo, até um vírus que já matou milhares de pessoas, em poucos meses nos quatro cantos do mundo, é uma brincadeira de meninos!
Curiosamente, esta brincadeira de meninos, sem os infectar, provoca muita vergonha nestes “corajosos”.
Vergonha de assumir o perigo que está ao virar da esquina;
Vergonha de adoptar as medidas de prevenção definidas pelas entidades competentes;
Vergonha de aceitar a vulnerabilidade inerente à condição humana;
Vergonha de ter medo!
Talvez, essa coragem ilusória venha da educação que tiveram; é o mais provável!
A verdade é que está na hora de perceber o que é ser corajoso.
Corajoso é aquele que, mesmo com medo, não paralisa!
Paralisar é o que muita gente está a fazer neste momento.
Paralisar é continuar a vidinha de sempre, sem reconhecer o risco a que se estão a sujeitar.
Paralisar é não aceitar a responsabilidade (de todos nós) em impedir que este vírus se propague a toda a população portuguesa.
O medo provocou a acção daqueles corajosos que não se deixaram paralisar ao ponto de colocar em perigo familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos por se “porem a jeito” de contaminação.
Por isso, peço a todos os “corajosos do ultramar” (e de outras paragens) para seguirem o exemplo dos “medrosos” que se mantém em casa, contribuindo assim na guerra contra este invasor sem rosto.
Peço-vos a todos para porem a mão na consciência e permanecerem em casa, junto dos vossos!
Para aqueles que vivem sozinhos, peço-vos um empenho maior, recorrendo à leitura, à música, à dança, à televisão, às redes sociais (nem acredito que estou a escrever isto), aos trabalhos manuais (para quem gosta), a toda e qualquer actividade lúdico-didáctica, que possam fazer no conforto do vosso lar.
Permaneçam em casa, por favor!
Por vocês, pelos vossos, por todos nós!
Acreditem que este tempo de recolhimento nos trará maior clareza mental, menor conflito interior, maior coragem para superar mecanismos sinistros que nos impedem de assumir a nossa vulnerabilidade para daí sermos mais autênticos e felizes.

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