Ouve com a alma!

«Alto lá, noiva o caraças! Eu não estou noiva de ninguém. Nem estou a pensar casar. E da mesma forma que vou trabalhar com ele, posso viver na mesma casa. Afinal, só vamos partilhar a sala, a cozinha e quando muito o escritório. O quarto de dormir e o quarto de banho são diferentes.» «Ai filha, desculpa lá, mas eu não fico descansada… não consigo, qualquer dia chegas a casa e não tens nada. Aquele pessoal é do piorio, estão à espera do momento certo para enganar, roubar e, quem sabe, matar.» «Percebo! Mãe, se vais continuar por esse caminho avisa-me já… prefiro sair antes, porque não te admito que fales do Filipe dessa forma. Ele é o meu melhor amigo, foi o único a estender-me a mão nos momentos em que mais precisei e nunca me exigiu nada em troca. Por isso, guarda os teus preconceitos para ti… eu nem quero sequer pensar no que vai dentro da tua cabeça, quanto mais ouvir o que tens para dizer. Bem, tenho que ir! Pai, eu depois ligo. Avó, eu prometo que volto cá para a levar a conhecer a minha casa. A verdade é que agora o ar nesta casa está irrespirável.»

A lo mejor, te quiero! (2)

Fiquei furioso com ela. Perdi a cabeça. Fiquei mesmo furioso por me estragar a surpresa. Senti-me indesejado – esse sentimento não me deixou pensar e reconhecer que muitas vezes fez o impossível para estarmos juntos. Só pensava que estava a dificultar o nosso reencontro. Fiquei tão furioso que borrei a pintura toda. Magoei-a de uma forma estúpida e infantil. E mais ridículo é que tudo aconteceu por birra – a estupidez natural de um puto com a mania. Tanta mania que podem imaginar a minha cara quando a recepcionista me entregou aquele papel. Pensei em tudo, menos no que era de verdade. Era uma mensagem curta: "Estou lá fora. Elena”. Olhei incrédulo. A pobre mulher viu o desespero no meu olhar. Confirmou com a cabeça. Pedi licença e saí atrás dela.

Como uma sentinela!

Na manhã seguinte acordei com um sorriso na cara. Dormi a noite toda, sem sobressaltos e interrupções. Ao espreguiçar-me senti os membros a soltarem-se do peso… senti as pernas a ficarem mais leves. A contracção das minhas costas libertou uma energia boa, leve e estimulante. Há muito tempo que não sentia tanta vontade de sair da cama. Levantei-me, vesti a camisola… nesse momento apercebi-me que a minha camisola de anos tinha um toque suave, agradável e reconfortante. O que me surpreendeu mais foi a forma como saí do tipi. Nos dias anteriores pousava o joelho no chão. Naquele dia não o fiz. Foi inconsciente aquele movimento. Foi natural!

A lo mejor, te quiero!

«Tenho. Certeza absoluta. Seria pior se ficasse com ele. Provavelmente iria acabar por dizer coisas que não sinto; posso até pensar, todavia não sinto. Seria um fim-de-semana horrível para mim e para ele.» – pausei por dois segundos – «Tenho que te pedir desculpa por tudo isto. Estou a impor a minha presença, a minha companhia. Não és obrigado a isto. Mal me conheces. Já te atrasei a viagem com aquela cena da tentativa de furto e agora ainda me carregas às costas… desculpa.»

E então?!

«Senhor Santos Camelo, bom-dia, fala Guilherme Sorriso, supervisor do serviço de apoio a clientes. Em que posso ajudá-lo?» «Vocês devem trabalhar muito aí! Devem, devem! Tanto tempo para falar com um “nergumo” qualquer? Palhaçada! Se fizesse o mesmo na minha empresa, já estava no olho da rua!» «Senhor Santos Camelo, em que posso ajudá-lo?» - voz firme e fria. «Não se ponha já com essas merdas, ouça-me primeiro! Vocês só estão aí porque eu vos pago o ordenado. Senão já estavam todos no olho da rua. Pode ser que os outros clientes “bos deixe” falar assim com eles, mas eu não alinho pelo mesmo “pasão”.» «Senhor Santos Camelo, como o senhor mesmo disse, nós trabalhamos muito neste call-center e por isso não podemos estar a perder tempo com insultos. Por isso, se pretende a minha ajuda, por favor vá directo ao assunto.»

“Pontapé de Saída”

«Sofia... há situações muito difíceis de ultrapassar na vida. Quando pensas que te amam e, na realidade, não te amam; apenas querem estar contigo por vaidade ou interesse. Ou então, quando toda a gente que te ama e admira espera que tu sejas bem sucedido, é muito difícil lidar com o insucesso. Sentes que desiludiste o mundo inteiro – pelo menos o teu mundo. E é nesses momentos que percebemos a força de um insucesso. A falta que ele nos faz para percebermos claramente a sorte que temos. Aconteceu-me há bem pouco tempo. Pensei que nunca mais ia conseguir olhar de frente para alguém. Queres saber a melhor? No dia seguinte sentia o corpo pesado e a alma leve, muito leve. Tinha uma alegria dentro de mim impressionante. Sabes porquê?»

“Todos os sentidos?”

O palco tinha várias almofadas no chão e ao centro viram um jovem casal a meditar. Estavam os dois descalços, sentados em lótus e de olhos fechados.
A certa altura, ele estendeu as pernas, deitou o tronco sobre estas e repousou assim por alguns segundos. Depois ergueu o tronco, levantou ligeiramente as pernas e rodou sobre si mesmo, ficando de costas para a mulher ainda num estado meditativo profundo.
Encostou as costas no chão e, de seguida, ergueu as pernas, formando um ângulo recto com o tronco. Esticou os braços suavemente para trás e abraçou as pernas da companheira.