Será a consciência o caminho para a harmonia?

Consciência… 1500 palavras sobre a consciência… entrei em pânico! Ia escrever o quê? Mesmo assim não quis dar parte fraca. A decisão tinha sido tomada, logo tinha que ser cumprida!

Procurei livros, trabalhos de outros, frases soltas; algo que me inspirasse e me apontasse um caminho. E nada! Nada mesmo!

Tentei escrever sobre a consciência – passei horas a tentar. Escrevia, apagava, voltava a escrever e mais uma vez nada. Tudo me parecia ridículo ou algo que não era meu. Mais parecia uma colagem do que outros já haviam escrito, dito ou pensado.

Andei durante semanas em pânico. E o pânico aumentava à medida que o tempo passava. O prazo estava quase a terminar e nada. Como poderia cumprir o prazo se não conseguia escrever sobre a consciência?

Estava no limite. Sentia-me cansada por estar sempre preocupada com os prazos, com o ensaio, com a consciência e com o receio de falhar o compromisso assumido. E foi nesse momento de cansaço que descansei.

Aquela luta que vivia há semanas esgotou-me toda a energia, por isso andava tão cansada. Logo que deixei de lutar com a dificuldade que sentia em escrever, que deixei de me preocupar com os prazos impostos e de me levar pelo ego inflamado pelo medo de falhar, tomei consciência do que é a consciência.

A consciência é apenas e só atenção! Atenção própria – atenção aos nossos pensamentos, às nossas emoções, aos nossos medos; ver com atenção o que nos rodeia e o que provoca dentro de nós. Falo da atenção sem ação – apenas observar, escutar; enfim, estar presente no momento, apenas ser sem fazer.

Quando andava cansada e desesperada por não conseguir escrever fazia-o de forma inconsciente. Afinal, ouvia mais o medo que tinha de falhar e a necessidade doentia em provar que era capaz do que propriamente observava os relâmpagos de consciência que volta e meia me chegavam.

A verdade é que já por algumas vezes tinha recebido luzes sobre o tema consciência e, como estava tão concentrada no que queria, no que o meu ego exigia, não conseguia ver para além do problema.

Assim que inspirei fundo vi a ponta do novelo. Depois disso bastou apenas puxar o fio e deixar fluir. E a leitura feita antes ajudou a reunir algumas definições de consciência, as quais contribuem para enriquecer esta reflexão.

A verdade é que neste momento parece pertinente abordar a importância deste tema. Porquê reflectir sobre a consciência? Quais são as razões por trás deste tema?

Simples! Basta olhar em volta para perceber que as pessoas vivem desligadas de si e da vida.

A sociedade actual leva-nos a oferecer aos outros uma ideia de nós, muito construída sobre o que temos, fazemos ou queremos. Pensem nas perguntas que habitualmente são feitas sobre pessoas que conhecem – o nome, a naturalidade, a profissão, a idade, o estado civil. E porquê? Será assim tão importante saber que alguém trabalha numa loja de pronto-a-vestir para saber quem essa pessoa é?

Pensemos então na comunicação. Dizem que comunicar é tornar comum. Tornar comum uma informação, um sentimento, um pensamento. Falamos de comunicação interpessoal – entre pessoas. E se estivermos a falar de comunicação intrapessoal – dentro da pessoa? Também será tornar comum? Comum a quem? A mim mesmo? Ou será desvendar ou despertar algo que está escondido dentro de nós? Não será então essa uma forma de consciência? E será possível tornar comum aos outros algo que não é comum a nós mesmos?

Ainda na comunicação há uma máxima que aponta para a importância da forma como comunicamos, já que se falarmos de forma agressiva com uma pessoa é provável que essa pessoa nos responda da mesma forma. Isto acontece se comunicarmos de forma inconsciente. E é aqui que a consciência se torna preponderante na melhoria das relações humanas e da comunicação entre pessoas, povos e culturas.

Imaginemos que alguém tem uma atitude menos correta connosco. Se formos conscientes, será que responderemos com a mesma atitude? Ou optaremos por manter a nossa paz de espírito e agiremos de acordo com a nossa consciência? Afinal, aquela atitude deve-se ao conflito interior que a outra pessoa vive e não ao nosso.

Pensemos no contrário. Alguém nos oferece um sorriso, um toque, um carinho, atenção ou apenas companhia. Essa pessoa está a oferecer-nos algo de muito valioso e raro nos dias de hoje. A verdade é que essa oferenda só será valiosa para nós se a recebermos. Se o nosso estado de espírito não o permitir, aquele presente será uma alegria para quem o dá e nada ou uma afronta para quem o recebe. A alegria, o conforto ou a felicidade que nos dedicam não está a ser vivida da mesma forma por nós e pelos outros.

Posto isto, parece fundamental reflectir sobre a consciência e a influência que esta tem na nossa vida e felicidade. Será que o facto de estar atento ao efeito que o que nos rodeia tem no nosso estado de espírito será suficiente para vivermos em harmonia? Será possível viver em harmonia num mundo em constante conflito? Ou será que o conflito global se deve ao facto de as pessoas viverem de forma inconsciente e em constante desarmonia?

Pese embora a origem latina da palavra aponte uma definição, muitas foram avançadas ao longo dos tempos. Consciência tem origem na palavra conscientĭa que significa conhecimento. Na Infopédia são apresentados vários significados como “conhecimento imediato da própria actividade psíquica, faculdade de se conhecer intuitivamente, sentimento de si mesmo, conhecimento espontâneo e mais ou menos vago, impressão, parte da actividade psíquica de que o sujeito tem um conhecimento intuitivo, estado no qual o sujeito se conhece enquanto tal, e se distingue dos objectos que o rodeiam, faculdade de fazer juízos de valor sobre os próprios actos, honradez, rectidão, cuidado, esmero, escrúpulo”.

De todas estas definições apresentadas no dicionário de português há três que se destacam: consciência é uma actividade psíquica, é conhecimento e acontece num sujeito. António Damásio, em “O livro da consciência”, reforça esta ideia ao definir consciência como “um estado mental em que temos conhecimento da nossa própria existência e da existência daquilo que nos rodeia”.

Voltemos ao início desta reflexão: a dificuldade de escrever sobre este tema e o fluir de palavras depois de relaxar. O estado mental em que vivia – atormentada pelos prazos, pelos medos, pelo ego – impedia-me de escrever. Será que numa inspiração recolhi todas as palavras que entretanto começaram a fazer sentido? Ou será que me preocupava mais com o problema do que me ocupava da solução?

Se estava com medo de falhar, se tinha vergonha de assumir que não era capaz, como poderia aceder ao conhecimento? E este conhecimento era a minha consciência do que era a consciência? Ou era apenas informação que tinha absorvido à qual não conseguia aceder por estar tão atordoada com medos?

Osho defendia que a consciência era apenas o resultado de estar alerta. Para ele a mente é um agente que quer agir. Já aquele que esteja alerta é apenas uma testemunha e “testemunhar é um estado de não-acção”. Por isso, quando relaxei, deixei de lutar e comecei a testemunhar os meus pensamentos, os meus medos, a minha confusão mental que me impedia de ouvir.

Foi nesse momento em que acedi à minha luz e percebi que a consciência era apenas isso… testemunhar o meu ser. E foi também nesse momento que consegui aceder às palavras e organizá-las de uma forma coerente e em conformidade com o que pretendia escrever, dizer, partilhar, tornar comum.

Enfim, aceitei o conhecimento interior ao reacender a paz dentro de mim.

E será que alcancei a harmonia quando libertei as palavras?

O dicionário inglês Longman define harmonia como “o estado de completo acordo (em sentimentos, ideias, etc)” ou “o efeito prazeroso pela combinação das partes como um todo”. Já o português da Lello aponta para a harmonia como um “acordo, paz, ordem, coerência ou simetria”.

Assim, parece que sim, que alcancei a harmonia, o acordo de sentimentos e ideias. Ao relaxar tomei consciência do que me impedia de escrever. Assim que tomei consciência do medo, da insegurança do ego desfiz-me deles e libertei as palavras. Com elas entrei no mais profundo do ser e apenas fluí pelas ideias, pelos sentimentos que a cada segundo brotavam dentro de mim.

Tomar consciência do que somos, de como vivemos e encaramos o que nos rodeia ou mesmo a forma como reagimos perante os outros em vez de agirmos perante a nossa essência é o caminho para vivermos em paz e harmonia. Viver em paz e harmonia é viver cada momento com a inocência e curiosidade de um bebé.

A escuta atenta, a observação curiosa, o sorriso aberto, o toque sincero são formas simples de viver e comunicar. Tudo se une numa ordem repleta de prazer e bem-estar que a todos delicia com momentos de completa felicidade, paz e harmonia.

Enfim, é através da consciência que abrimos as portas à nossa verdade interior, à nossa essência… e assim alcançamos a harmonia, a paz, a felicidade, a realização interior.

E sim, é possível viver em harmonia num mundo em conflito. Afinal, a consciência permite perceber que há momentos em que permitimos que as atitudes dos outros alterem o nosso estado de espírito, que provoquem em nós mal-estar e sentimentos negativos que apenas prejudicam a nossa existência.

Nesse sentido, convém tomar consciência que viver é agir de acordo com a nossa essência em vez de reagir ao conflito dos outros. A consciência do que nos é essencial instiga à mudança interior de atitudes, de sentimentos, de pensamentos e motiva a leveza de ser, de apenas ser. Essa mudança enriquece-nos e impulsiona a mudança no mundo.

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