Depende da perspectiva

Assim que deslizo a porta sinto o ambiente a arrefecer. Na rua, o vento cortante percorre a minha face. Desço a avenida a grande velocidade, escondida entre o casaco e o cachecol, ansiando pelo aquecimento do comboio, que me levaria para mais uma longa viagem matinal.

Pouco depois saí do gélido ar da cidade e recebi o bafo quente da estação. Logo senti a vibração do comboio a reduzir a velocidade para nos receber no seu interior. Num breve salto passei das escadas rolantes para o interior do comboio. Mais um segundo e ficava em terra.

O cheiro do comboio é característico. Nunca se sabe bem a que cheira já que lá dentro se misturam vários aromas… perfumes de todos os gostos e o sentido fechado do comboio mesclam com o nosso odor corporal.

Como o dia começou bem cedo – de vez em quando – sinto o meu corpo a desligar. Mesmo assim, sempre tive dificuldade em dormir em espaços públicos. Quase sempre é a paisagem que me mantém atenta.

Agarro-me a ela com todo o ser. Por vezes prendo-me no verde das árvores e arbustos que viajam em sentido contrário. Há outras, que me deixo levar pelo brilho do sol a bater nas águas dos rios que ali vão tocar.

Perdida na imagem natural que anima as margens da linha, sinto todos os murmúrios dos meus vizinhos de viagem. E num suspiro, ouço a voz de alguém – uns lugares à minha frente – a tentar, a todo o custo, despertar a curiosidade a quem se ocupava da natureza… a mesma que comigo viajava.

Durante algum tempo ouvi frases como “já leste o jornal?” ou “tem aqui muita coisa interessante”. Do outro apenas ouvia o descaso completo pela informação que queria passar-lhe.

A dada altura, e depois de muita insistência, o jovem, que encostava a testa à janela, abandonou a paisagem e perdeu-se nos meus olhos. Ficou inerte e concentrado. Eu deixei levar-me pelo brilho dos seus. Sem saber muito bem o que fazer, decidiu então pegar no jornal e disse:

“Ora vamos lá ver… novela política, mais novela politica, ah… novela futebolística – quem compra quem, quem vende quem, a arbitragem – balelas, balelas e mais balelas!!! Parece-me que esta maravilhosa paisagem que nos acompanha é uma distracção bem mais agradável! Não te parece?” e voltou a perder-se nos meus olhos. Desligou-se, enquanto o outro amuava.

Poucos segundos depois, voltou ao seu namoro com a natureza e eu encontrei-me no esplendor das águas brilhantes que percorriam a sua face iluminada pelo sorriso refrescante do sol.

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