Viver com compaixão nos dias de hoje: alcançável ou utopia?

O que é afinal a compaixão? Será possível abraçar a compaixão num mundo em constante mudança e a correr contra o tempo? Ou será apenas um sonho impossível de realizar – viver em compaixão?

Ao longo de uma avenida repleta de árvores carregadas de flores, folhas e pássaros, pensava na vida enquanto a percorria ladeira abaixo. De repente vi uma barata, grande e preta, de patas para o ar. Movia-as com toda a força… tentava voltar à posição normal.

Passei por ela ao largo. Não sei, de patas para o ar, que mal poderia fazer-me? Mesmo assim, passei ao largo. Poucos passos tinha dado, olhei para trás… pensei que poderia virá-la ao contrário para ir à sua vida.

Nem pensar! Tenho pavor destes bichos. Olhei para a frente e fui à minha. Deixei-a ali, de patas para o ar, entregue à sua sorte. Pensei em mim e nos compromissos que tinha, não podia perder tempo com uma barata, pois começava a ficar atrasada.

A verdade é que não a deixei ali, carreguei-a comigo todo o dia. Aquela barata questionava-me! Os pensamentos, a atitude, os medos, as razões imediatas, tudo o que naquele momento tinha fundamentado racionalmente o “virar de costas“…

Devem estar a pensar que enlouqueci de vez! Acreditem, eu pensaria o mesmo… uma barata; quem se lembraria de passar o dia a pensar numa barata?

Se calhar têm razão. Toda esta situação pode parecer ridícula, mesmo assim aquela barata fez-me pensar em todas as vezes em que me acontecia o mesmo… o ligar do automático para me livrar de situações incómodas ou “menos importantes” – quase como o automático dos aviões que os controla por completo, bastando apenas pressionar o botão.

Ao longo do dia apercebi-me da quantidade de vezes em que aquela mesma atitude de “virar as costas” se repetia sem qualquer consciência disso.

Começa logo no comboio. Fazer uma viagem de pé num comboio é desconfortável, por isso a primeira coisa que faço quando entro num é procurar o primeiro lugar vago. Sento-me confortavelmente e ponto… venha quem vier, não arredo pé dali até que chegue à paragem em que saio. Venha quem vier, mesmo! E curiosamente dou por mim a pensar “pobre do homem“, quando vejo algum velho de pé à procura de um lugar para se sentar. Penso sempre, “será que ninguém lhe dá o lugar?” ou “se oferecer o meu, ainda leva a mal!” – enfim, rapidamente encontro desculpas para continuar a minha viagem sentada confortavelmente..

No trajecto do comboio até à empresa passo por duas figuras que sempre me provocam um sentimento de… sei lá, desconforto! O primeiro é um homem que passa a vida a pedir moedas perto da estação – habitualmente diz que é para comer alguma coisa, se bem que aparenta ser para a primeira cachaça do dia. Enfim, rapidamente me desvio e penso mais uma vez no “pobre do homem que não pediu aquela sina”.

Pouco antes de chegar à entrada da empresa é possível ver um sem-abrigo ainda a dormir na rua, encostado a uma parede que tresanda a urina. É degradante pensar que alguém consegue dormir ali. Brotam vários pensamentos, se bem que logo me lembro de alguma coisa mais importante.

Naquele dia – da barata – ao passar por essas duas figuras pensei o que sempre penso quando me cruzo com eles e apercebi-me que o sentimento de incómodo, angústia me carregava com um sentimento de culpa, de tristeza por nada fazer para reverter a situação. Aquele sentimento era a esmola que dava todos os dias, se bem que uma esmola envenenada, pois aqueles dois homens e a pobre da barata não precisavam disso; quando muito poderiam precisar da minha ajuda.

Hoje tenho consciência disso! Na altura não a tinha, por isso, durante semanas, andei com aquele sentimento de culpa dentro de mim. Uma tarde, daquelas que tiramos para nada fazer ou, como aconteceu, dar alguma atenção à nossa rede social, vi na internet um vídeo do XIV Dalai Lama, Tenzin Gyatso, em que falava sobre a compaixão.

A culpa que carregava e as palavras daquele pequeno ser sorridente e de palavra fácil plantaram em mim a vontade de reflectir sobre a compaixão. Queria perceber se o que sentia era uma forma de compaixão. Nunca me vi como uma pessoa compassiva, até porque tinha uma ideia de compaixão muito ligada aos monges tibetanos. Para mim não era possível viver em compaixão na sociedade actual… como poderíamos cuidar de alguém que nos faz mal?! Na minha opinião era impraticável.

Decidi então ler sobre a compaixão e ver mais alguns vídeos que conseguisse encontrar na internet. Por mais incrível que possa parecer, a compaixão é um tema muito desenvolvido na blogosfera e também abordada em livro.

Enfim, encontrei várias definições de compaixão e todos a relacionavam com o sofrimento dos outros. Fiquei então com a ideia generalizada que a compaixão é o ato de libertar os outros do sofrimento, se bem que há também a ideia que o sofrimento dos outros não pode ser substituído pelo nosso sofrimento.

Ok, voltemos atrás no tempo: percebo que poderia ter libertado a barata do seu sofrimento se a tivesse ajudado a voltar à posição normal. E os outros? Como poderia libertá-los do seu sofrimento? Esta busca provocou um sentimento de culpa e um ainda maior de impotência… aquele sentimento consumia-me por dentro, pois sentia-me culpada por nada fazer e incapaz de fazer alguma coisa para o ultrapassar.

Aquela ideia de reflectir sobre a compaixão provocou-me insónias e sentimentos controversos… sabia que o que sentia não era compaixão; queria ser capaz de a sentir e não sabia como. A verdade é que aquela definição de compaixão parecia-me vazia demais para um sentimento tão magnânime. Além disso, como não era possível libertar alguém do sofrimento, aquela definição levava-me a pensar que a compaixão era uma ilusão.

Bem, uns dias mais tarde, durante uma daquelas trocas de ideias ao acaso com amigos, alguém dizia que achava a compaixão um sentimento negativo, por que só quando alguém está mal é possível sentir compaixão; a compaixão existe porque o sofrimento do outro existe, caso contrário não é possível sentir compaixão.

Ok, esta ideia vem de encontro à definição avançada por vários pensadores. E olhando do ponto de vista negativo, tem alguma lógica. Afinal, se a compaixão é apenas o ato de libertar o outro do sofrimento, para existir compaixão teria que existir sofrimento.

E como podemos nós saber que os outros vivem em sofrimento? Por exemplo, o homem que pede moedas na rua – eu posso achar que vive em sofrimento, controlado pela bebida e em vergonha por pedir esmola. Mesmo assim, como posso ter a certeza absoluta que vive em sofrimento? Ele pode, perfeitamente, ter aceite as experiências que a vida lhe traz e viver em paz consigo mesmo. O mesmo se aplica ao homem que dorme na rua. Eu não sei se sofrem; apenas sei que a forma como vivem me incomoda.

Bem, se partirmos do pressuposto que a compaixão é o ato de libertar do sofrimento, então quer dizer que quem precisa de compaixão sou eu? E de quem? Dos outros? E como podem saber eles que sofro? Então, isto quer dizer que a compaixão começa em nós e para nós. E em que consiste exactamente? Recusei-me a aceitar que a compaixão era apenas isso.

Foi nesse momento que me recordei das minhas aulas de Latim e recorri aos dicionários que há tantos anos serviam de prateleira ao pó. Primeiro, procurei a origem da palavra compaixão. Tem origem em “compassione”, uma declinação de “compassio, onis”. De seguida procurei o significado de “compassio” e surpreendi-me. Um dos significados é mesmo sofrimento comum, se bem que também quer dizer simpatia e, mais importante, comunidade de sentimentos.

Se nos cingirmos ao significado de sofrimento comum, poderíamos aceitar apenas o significado de ato de libertar do sofrimento; agora, se reflectirmos sobre o significado de comunidade de sentimentos… bem, aí podemos abrir o leque. Porque razão compaixão seria apenas uma comunidade de sentimentos como o sofrimento, a angústia, a tristeza? A alegria, a felicidade, o amor também são sentimentos e também podem ser vividos em comunidade.

Confesso que este significado me enche as medidas e acaba por vir de encontro à ideia que a compaixão começa em nós e por nós, porque unindo os vários significados da palavra latina “compassio” parece-me claro que a compaixão é o ato, a acção consciente de que os outros merecem a mesma compreensão, aceitação e felicidade que nós, para além de nos permitir aceitar que todas as experiências que vivemos – boas ou más – contribuem de alguma forma para alcançarmos a felicidade.

Contrariando o que pensava, sim é possível viver em compaixão nos dias de hoje, desde que percebamos que cada um de nós é uma célula viva deste grande organismo chamado Universo e que, para que ele viva em harmonia, cada uma das células tem que a alcançar primeiro. Porque tudo na vida começa em nós e, através dos nossos actos, pensamentos, sentimentos e desejos, transformamos o mundo.

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