Luz que me acompanha

A minha avó Ângela sempre teve muita importância na minha vida. Tenho um carinho muito especial por ela, mesmo tendo abandonado este mundo há 29 anos atrás. Ela ascendeu à luz a 4 de Fevereiro de 1981. Esta é uma data muito lembrada pela minha família e sempre com um sorriso nos lábios.

Algumas pessoas estranham essa forma tão bizarra de falar da morte de um ente querido. A verdade é que a minha mãe foi educada para festejar a vida das pessoas em vez de chorar a morte delas. Recebeu essa “filosofia de vida” da minha avó Ângela e passou-a aos filhos.

É raro o enterro a que vou que passe sem fazer uma sentida homenagem ao ser que nos abandonou. Essa homenagem passa por lembrar momentos felizes e alegres dessa vivência. Por exemplo, no velório do meu avô paterno estive durante uma hora com os meus primos a relembrar a figura que ele era. Rimos da vida que ele tinha vivido e as felicidades que nos tinha oferecido com a sua presença.

Tenho que agradecer isso à minha avó. Ela morreu estava eu a caminho dos quatro anos. Eu passava o tempo todo com ela. Brincava, passeava, tudo. Ela adoeceu e foi levada para o hospital. Os médicos deram-lhe pouco tempo de vida e ela pediu aos meus pais para voltar para nossa casa. Queria morrer entre os seus.

Nessa altura a minha mãe decidiu inscrever-me no infantário. Mesmo assim, logo que chegava a casa corria para o cadeirão da minha avó, que estava na sala logo à entrada de casa. Ela já não via, ouvir era pouco. Digamos que estava muito limitada nos seus sentidos e continuava muito completa nos seus amores. Eu e os meus irmãos éramos a luz dos seus dias. Quando chegávamos a casa ela parecia melhorar, parecia ganhar outra luz.

Enfim, houve um dia em que cheguei a casa e ela já lá não estava. Assustei a minha mãe quando lhe perguntei onde estava a minha “vóvó”. Ela tentou fugir à conversa, talvez por não saber o que dizer ou como o dizer. Disse-me que a minha avó tinha ido para junto do meu avô. A minha resposta foi imediata “também quero ir”.

Claro é que eu não queria morrer, o que queria era estar com a minha avó. Adoro-a, mesmo conhecendo-a por tão pouco tempo. A presença dela é verdadeira. Todos os dias, nem que seja por segundos, sinto-a perto de mim. Parece que se senta ao meu lado a guardar os meus pensamentos.

Estou grata por tudo o que partilhou comigo. Estou grata por me ter dado a mãe que tenho. Estou grata pelo amor que me deu nos meus primeiros anos de vida. Estou grata por me acompanhar agora. Sempre que penso nela sinto-a comigo e isso nem a morte me pode tirar.

Assim, sorrio quando passa mais um ano do dia em que a luz que me acompanha retomou o seu lugar na grande luz eterna.

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