Multiculturalismo e o entendimento entre culturas

«We live in a culture of deep scarcity, defined by this: never enough. You can fill in the blanks, never good enough, rich enough, powerful enough, safe enough, certain enough, perfect enough, extraordinary enough, and one of the most least discussed, but probably the most dangerous, not enough» .
O conceito de scarcity culture apenas torna claro que vivemos numa sociedade em que não existimos se não estivermos a fazer alguma coisa magnífica, em grande, com visibilidade. Existe a ideia que não interessa porque motivo as pessoas sabem o que fazemos, desde que saibam. Este tipo de cultura é alimentado pela vergonha, pela comparação entre pessoas e pelo descompromisso. A contemporaneidade encontra-se, assim, fragmentada por indivíduos perdidos entre tecnologias desconcertantes e momentos multiculturais, que juntam no mesmo espaço e tempo culturas com costumes diversos e, por vezes, contraditórios. Este abalo estrutural acaba por levar o indivíduo a desligar-se do seu papel na construção de uma sociedade assente no bem comum.
Esta ideia de scarcity culture vem, assim, de encontro ao individualismo de Taylor e à sociedade assente numa estrutura ideológica de hierarquias e supremacias raciais e étnicas, de Kymlicka. Este individualismo exacerbado por uma visão instrumental da sociedade acaba por passar a ideia que o indivíduo não se identifica com a sociedade contemporânea e ao mesmo tempo fortalece a incapacidade de a transformar, já que o individualismo e a razão instrumental deslocam a decisão para o Outro, desresponsabilizando o indivíduo. Aliás, «A maior parte da população das sociedades democráticas actuais dá mais importância à sua vida privada. A cidadania privada ou passiva a que a ampla concessão de direitos deu lugar, por oposição a uma cidadania pública ou activa (…) A apatia dos cidadãos resulta de uma ênfase aparentemente exagerada nos direitos sociais, sem se exigir deveres em troca ».
Desta feita, parece que estas formas de mal-estar da sociedade contemporânea são sintomas da transformação que está a ocorrer há vários anos, questionando a identidade individual e colectiva, uma vez que «a identidade não emerge ou não é construída pela identificação com um bem comum, mas surge ameaçada pelos interesses particulares reunidos numa identidade grupal ». A globalização provocou profundas mudanças ao nível das identidades locais, aparentemente mais fechadas, transformando-as em identidades mais abertas e plurais. O contacto com a diversidade cultural surge como um choque de crenças que não sabemos ter ou não queremos admitir que as temos .
O facto de crescermos numa sociedade que ensina a julgar e a temer pessoas de determinadas culturas, com determinadas crenças, hábitos, comportamentos ou imagem, acaba por nos condicionar. Tudo isto está tão enraizado na nossa identidade que acaba por surgir como um comportamento natural, se bem que, com o multiculturalismo, o que era natural transformou-se numa tomada de consciência das crenças negativas que possamos ter em relação ao Outro.
Esta ideia vai de encontro ao que Kymlicka disse sobre os movimentos de luta contra as desigualdades e de defesa das minorias, que surgiram na sociedade moderna. Para ele surgiram para desconstruir esta estrutura ideológica assente na hierarquia e supremacia racial e étnica. O multiculturalismo é apenas um deles. E nem todos os acontecimentos da história da Humanidade nos ensinaram a não cometer os mesmos erros. Continuamos inseridos num ciclo vicioso, porque ainda não percebemos que a ideologia subjacente à nossa sociedade está errada.
E como é que ultrapassamos esta ideologia de julgamento e preconceito? O multiculturalismo surge como uma oportunidade de evolução, no entanto só será verdadeiramente uma oportunidade no momento em que deixarmos de o ver como uma ameaça. Enquanto continuarmos a ver a multiculturalidade como uma ameaça, continuaremos a questionar as culturas diferentes da nossa, criando conflitos com pormenores que não têm qualquer fundamento. Exemplo disso é o facto de o poder político em França querer obrigar as mulheres muçulmanas a deixar de usar o lenço na cabeça. Situação que pode roçar o ridículo, se pensarmos que as mulheres ocidentais já usaram lenços na cabeça, se bem que por motivos estéticos.
O pluralismo cultural existente na sociedade contemporânea está de certa forma a provocar uma tomada de consciência dessa ideologia de supremacia que está subjacente à nossa cultura. Essa tomada de consciência é assustadora, pois põe-nos perante uma situação de ilusão, ou seja, tudo em que acreditamos é uma mentira. A verdade é que para desconstruir algo há que tomar consciência desse algo. Logo, para desconstruir a ideologia de preconceito e julgamento há que tomar consciência dela e da sua inveracidade.
De que forma é que podemos mudar tudo isto? De que forma podemos mudar a sociedade? Começando por tomar consciência destas pequenas e invisíveis crenças que temos em nós e, dessa forma, desconstruí-las de maneira a anulá-las da nossa identidade. É no Eu que se inicia a transformação deste mundo. Como dizia Ghandi, «Sê a mudança que queres ver no mundo!».
Como podemos pedir a uma civilização, que está tão individualista, que só pensa em si e que se desresponsabilizou completamente de tudo o que acontece na sociedade, para pensar no bem comum? Primeiro, há que transformar o indivíduo, procurando desenvolver uma maior consciência do papel que cada um tem no bem da sociedade. Afinal, se uma sociedade assentar num pressuposto de cooperação, igualdade, respeito, autenticidade e reconhecimento, cada indivíduo estará mais próximo de se sentir realizado e feliz.
O impulso moral deve ser no sentido do respeito e da aceitação para que todos possam ser autênticos. Taylor diz que todos nós temos que ser autênticos e ser fieis a nós mesmos, pois é da nossa responsabilidade, é assim que iremos contribuir para a auto-realização. O reconhecimento do valor dessa autenticidade vem dos outros. Há que ser autêntico e reconhecer a autenticidade como um valor fundamental numa sociedade harmoniosa e equilibrada. A verdade é que nós não conseguimos definir a nossa identidade sem esse relacionamento com o Outro e respectivo reconhecimento. Por isso, há que conhecer as nossas necessidades e as dos outros, para ser possível respeitá-las e procurar um equilíbrio entre as necessidades do Eu e as necessidades do Outro.
Entre Taylor e Kymlicka há algo comum. Ambos perceberam que o caminho está na aceitação do Eu e do Outro, reconhecendo neles o mesmo direito de aceder ao que lhes é mais autêntico e viver de forma verdadeira. Tudo isto acaba por servir de reflexo na sociedade. O respeito, a autenticidade, o reconhecimento são uma estrada de dois sentidos. Se o Eu respeitar o Outro, o Outro respeitará o Eu. Se o Eu for autêntico com o Outro, o Outro será autêntico com o Eu. Se o Eu reconhecer valor no Outro, o Outro vai reconhecer valor no Eu. Afinal, sempre que um indivíduo é reconhecido positivamente, sente-se mais capaz de reconhecer positivamente outro indivíduo.
«Uma forma de curar o eu que os que têm estas identidades compartilham é aprender a ver estas identidades colectivas não como fontes de limitação e insulto mas como uma parte valiosa do que elas centralmente são. Porque a ética da autenticidade nos exige que expressemos o que centralmente somos, eles exigem assim o reconhecimento na vida social enquanto mulheres, homossexuais, negros, católicos .»
Posto isto, entendo que o multiculturalismo é uma ferramenta de promoção de evolução da sociedade contemporânea, sempre que assente numa estrutura intersubjectiva de reconhecimento mútuo. Esta ideia assenta no pensamento de Axel Honneth , no qual explica que a estrutura intersubjectiva da identidade pessoal positiva a auto-relação através do reconhecimento a três níveis: amor, direito e solidariedade. Honneth parte de Mead e do pressuposto que a consciência dos significados intersubjectivos nascem da auto-consciência humana do efeito das suas acções. Estas três formas de reconhecimento provocam o desenvolvimento de três sentimentos que positivam a inter-relação e a intersubjectividade: (1) a auto-confiança, que nasce do reconhecimento da carência e vulnerabilidade inerente ao ser humano; (2) o auto-respeito, que nasce do reconhecimento do direito a ser visto como igual; e (3) a auto-estima, que nasce do reconhecimento da dignidade de ser pessoa .
Ser humano, ser igual e ser pessoa são três momentos que entroncam na ideia que a auto-realização do indivíduo depende do reconhecimento externo – ou seja, a ideia de Taylor sobre a autenticidade ser responsabilidade do Eu, se bem que só pode ser reconhecida pelo Outro. Honneth defendia, mesmo, que o reconhecimento interno depende do reconhecimento do Outro, pois este último positivava os sentimentos que poderiam provocar conflitos numa sociedade. Tanto o reconhecimento de Taylor como de Honneth vêm fortalecer a ideia de Kymlicka em que a pertença cultural é fundamental para a identidade individual e colectiva. Assim, é fundamental reconhecer o direito do Outro de pertencer e se expressar de acordo com a sua cultura.

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