Desculpem lá! Eu sou assim!


O café está quase vazio, mesmo assim subo ao primeiro piso. Tem mais luz, é mais calmo e posso estar em silêncio para pensar na vida.
Como resolução de início de ano, tiro todos os dias dez ou vinte minutos para pensar no meu dia. Sentei-me naquele primeiro piso e pensei, pensei e pensei num dia estranhamente vazio.
Alguma vez chegaram ao final do dia e sentiram que nem valeria a pena sair da cama?
Pois! Era esse o sentimento que me preenchia o ser. Entretanto o vazio do espaço foi corrompido pela voz barulhenta de uma mulher. Estava acompanhada de outras pessoas, se bem que ela, com a sua atitude bélica e estridente, ocupava os lugares todos daquele café.
Ouvia-a dizer vezes sem conta “Desculpem as minhas palavras, mas sou assim, muito frontal!”.
Os outros apenas se entre olhavam e anuíam com a cabeça. Por mais de trinta minutos estive – provavelmente de boca aberta – a observar aquela cena deprimente. Pensava para mim se realmente a aceitavam assim por acharem que era algo irreparável ou se, pelo contrário, nem queriam saber.
Enfim, a mulher disse todas as barbaridades e mais alguma. E sempre que alguém se mostrava algo ofendido ou escandalizado, lá vinham novamente os pedidos de desculpa “porque eu sou mesmo assim, muito frontal – é a minha maneira de ser sabe, não consigo controlar”.
Umas mesas mais à frente, estava um casal sentado a tomar café com um amigo – estavam, os três, visivelmente incomodados com aquela situação. Penso que aguentaram até ao seu limite.
Ao sair, e quando passavam atrás daquele grupo de quatro ou cinco pessoas, o amigo do casal parou próximo à senhora que “não se conseguia controlar” e tocou-lhe ao de leve o ombro.
Assim que ela se virou, agraciou-a com um ensinamento para a vida: acertou-lhe em cheio na cara com uma chapada bem assente.
A mulher não teve reacção; os amigos quietos ficaram e ele, muito sereno, disse:
«Peço desculpa! Sabe, eu tenho disto – dou bofetadas, assim sem qualquer razão, a pessoas que não conheço. É muito constrangedor; a verdade é que sou assim, não consigo controlar esta ânsia de esbofetear alguém. Peço-lhe imensa desculpa!»
Virou costas e foi à sua vida, acompanhado por um casal muito sorridente. A mulher? Essa estava em choque… durou uns minutos. Parece-me que nem se apercebeu de alguns risos e piadinhas dentro do grupo que a acompanhava.
Apenas sei que depois daquele dia não me recordo de ter ouvido algo assim da sua boca; e encontrei-a quase todos os dias.
E eu? Bem, só posso dizer que o meu dia já não parecia assim tão vazio. Pude escrever na minha agenda – nesse dia – três ensinamentos muito válidos, que adoptei para a minha vida: o dia só acaba, quando chega ao fim; podemos sempre aprender com as experiências dos outros; e nada é desculpa para desrespeitar os outros só porque sim.
De um dia tão vazio – e apenas em trinta minutos – enchi-o de momentos desafiadores e de ensinamentos. Basta um segundo, uma atitude, uma consciência para mudar o nosso mundo.

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