Recria-te!


«Rúben, e a meditação? Lembras-te? O Ayur…»
«É verdade! Já me tinha esquecido.»
«Experimentamos?»
«Claro!»
Enquanto foi ao quarto trocar de roupa, ela aproveitou para vestir a roupa do workshop e acender as velas e os incensos. Quando retornou ao quarto, logo sentiu o ambiente a encher-se de sândalo. O incenso era suave e relaxante.
Sentaram-se nas almofadas que a Ana tinha atirado para o chão e aproximaram-se – dando as mãos cruzadas. Ficaram assim durante alguns minutos em silêncio e a olhar um para o outro. O silêncio foi incomodativo. Pelo menos nos primeiros minutos. Com o olhar percorriam cada linha de expressão, cada sinal de incómodo, cada tentativa de controlar o frenesim que a respiração mostrava.
Depois fecharam os olhos e começaram a murmurar. Não se percebia o que diziam, se bem que, algum tempo depois, parecessem responder ao que o outro dizia, sem sequer perceberem de facto o que diziam.
No final da meditação saíram para a varanda e ficaram na conversa. Sentados debaixo da luz da lua e embalados pelo som das ondas do mar, o Rúben relembrou a conversa que tinham tido por mensagem – ela e o Ben…
«Deixaste-me com a cabeça às voltas, quando te falei do homem ideal e dos requisitos…»
(riu) «Oh, acreditaste nisso?»
«Eu acreditei! Foste tão peremptória e convicta! Como poderia não acreditar?»
«Oh! Só tenho um requisito para escolher um homem…»
«Um? Ui! Que medo!»
«Sim, um. E em nada está relacionado com o homem.»
«Como assim?»
«Está relacionado comigo. Escolherei aquele homem com quem me sentir em sintonia. Rúben, eu só quero ser feliz, por isso escolho aquele com quem sinta proximidade, sintonia, intimidade… verdadeira intimidade. Aquele com quem possa ser eu!»
Olhava-o nos olhos e sentia que a escutava verdadeiramente. Ficaram pensativos durante alguns segundos e aproximaram-se da extremidade da varanda ainda a tempo de levar com a humidade salgada da onda do mar a chocar violentamente com a rocha.
Quando olharam para baixo viram o recuar do mar a desenhar um coração gigante entre as pequenas rochas que surgiam com o arrastar da areia.
«Viste?»
«É um coração!»
«É, não é?»
Maravilhados com aquele fenómeno da natureza, quase não pregaram olho.
O mar tem destas coisas!

«Podemos começar por ti Ana?»
Encolheu os ombros e esperou que o Ayur lê-se o que tinha escrito.
«Muito bem. A Ana pede ao Rúben para dizer o motivo que o levou a abordá-la com um nome falso.»
«Já o disse ontem. Estiveste distraída!»
«Quero o motivo verdadeiro!»
«Então Ana?» – insiste o Ayur.
«O quê? Ele é que tem que responder!»
«Não. Tu é que tens que cumprir a tarefa.»
«Como assim?»
«Tens que ser verdadeira sobre o motivo que te levou a aceitar a abordagem dele.»
«Mas a tarefa era para ele!»
«Certo! Se bem que numa relação convém que só exijas ao outro o que tu és capaz de dar. Por isso, o palco é todo teu!»
Ficou perplexa e os outros riam.
«Ok. É justo! Só podemos exigir aquilo que somos capazes de cumprir.» – procurava ganhar tempo – «Então, hãããã… Rúben… eu aceitei a tua abordagem por mensagem porque…» – respirou fundo, escondendo o olhar no chão – «Sentia-me sozinha, precisava de atenção, sentia necessidade de ser desejada e enfim… o facto de ser por mensagem fazia sentir-me em segurança.»
«Doeu?»
«Não. Até me sinto mais aliviada.»
«Óptimo! A tarefa que o Rúben escolheu para ti foi a mesma. Estão em sintonia!» – o Ayur a provocar os dois com um sorriso irónico – «Então Rúben? Disposto a cumprir a tarefa?»
«Lá terá que ser!»
«Podes sempre dizer que não.»
«Não… quero cumprir a tarefa! E queria que a Ana fosse verdadeira sobre o que pensou ontem à noite quando vimos aquele fenómeno da natureza mesmo debaixo da varanda do quarto dela.» – inspirou fundo e procurou coragem dentro de si – «Eu pensei nela! Pensei que o mar estava a dizer que somos duas rochas separadas pelas ondas e pela areia, se bem que unidas por um coração gigante e perfeito. E também que o que mais nos separa é também o que mais nos une! Eu não sou perfeito e tu também não… a verdade é que eu adoro as tuas manias de perfeição imperfeita!»
«Rúben…» – estava sem palavras.
«Não precisas de dizer nada. Temos muito tempo para falar sobre tudo isto. Não será aqui com certeza.»

No dia anterior, o que mais gostaram foi a meditação a dois. Assim repetiram a dose e adoraram a sensação. Depois a Khya demonstrou algumas das manobras para descontrair as costas e relaxar o pescoço e os ombros.
Em seguida – como tinha acontecido no dia anterior – o casal de terapeutas levantou-se e corrigiu posturas de braços, de pernas e de coluna.
Assim que as mãos percorrem, em sentido ascendente, as costas do parceiro, a sensação de bem-estar brota em quem dá a massagem e em quem a recebe. O entendimento é imediato e a mensagem passada na sua plenitude. Das costas, às pernas, ao peito, à cara e à cabeça, é um momento único de partilha de sensações constantes e sinceras.
A Ana e o Rúben entregaram-se completamente um ao outro. Passaram assim o dia a partilhar amor comum. As mãos do Rúben tocaram pela primeira vez a pele aveludada da Ana.
Ela sorriu. Lembrou-se da publicidade à magia das suas mãos. Sentia a sua pele quente a refrescar a cada toque. O movimento delas, coladas ao seu corpo relaxado, agitava-lhe as emoções. Percebeu então que o que a tinha empurrado para aquele workshop era uma necessidade de se libertar do sentimento castrador que sentia quando fugia ao que mais desejava… o Rúben passava-lhe um conforto que a amedrontava – que tanto desejava – e do qual estupidamente fugia.
Ele sentia a confusão dela a fluir por cada poro. Concentrou-se na paixão que o tinha levado até ali e procurou transmitir-lhe alegria, conforto, confiança e amor sempre que lhe parecia inquieta, receosa e assustada pelo prazer que já vivia na sua companhia. Estavam ambos inebriados pelo ambiente que se fazia sentir, tal era a beleza do bailado de movimentos, cheiros e sons.
No final da massagem, foram para a praia e sentaram-se à beira-mar a aguardar a hora certa para tomar banho.

Quando a conversa com o mar terminou, trocaram algumas ideias uns com os outros. O Ayur lembrou-se então de perguntar o que tinham sentido na sessão de meditação do Osho.
«Chegaram a fazê-la?»
«Nós fizemos. Foi muito engraçado, porque começamos os dois, cada um com os seus murmúrios e depois apercebemo-nos que os nossos murmúrios se completavam. Quase parecia que estávamos a responder um ao outro. Parecíamos em sintonia. Foi estranho. Foi uma sensação muito boa, muito agradável, se bem que estranha. Nunca tinha sentido tal coisa.»
«Parecia que nos tínhamos fundido… tornamo-nos num só. Foi muito agradável, mesmo!» – o Rúben a acompanhar a alegria da Ana.

Aquela pergunta lançou um silêncio no ar. Era leve, parecia apenas trazer à consciência a resposta. Já a sabiam, se bem que agora estavam obrigados a trazê-la às palavras. Parecia que não conseguiam encontrar as palavras certas para dizer o que sentiam… o que tinham sentido durante aquelas 48 horas de recriação.
(ainda a medo) «Sim, os objectivos foram alcançados. Pelo menos para mim foram. É difícil explicar o que sinto hoje e tudo o que vivi nos últimos dias. Ainda estou a tentar perceber o que se passou dentro de mim. Mesmo assim, sinto-me realizada com este fim-de-semana.»
«Muito bem Ana. E o que foi que te deixou tão realizada?» – perguntou a Khya à procura de um desabafo.
«Tudo… passar este fim-de-semana na companhia dos meus queridos amigos, o Marco e a Inês, que tanto mau feitio me aturaram. Ter a oportunidade… bem, é mais dar-me a oportunidade de conhecer o Rúben e, principalmente, permitir que ele me conheça, sem tentar afastá-lo com o meu geniozinho – tinhas razão, toda a razão. E claro poder privar de perto com duas pessoas maravilhosas como vocês… senti-me em mim pela primeira vez na vida. Senti que queriam provocar-me. Não que quisessem provocar-me até à exaustão, como algumas pessoas fazem. Não. Senti que quiseram provocar-me de volta a mim mesma. E isso faz-me sentir grata por tudo. Sei lá! Parece que vivi mais nestes dois dias que em toda a minha vida. Quando liguei a perguntar sobre o workshop… bem, liguei porque sentia falta de algo na minha vida e pensei que aquela palavra era a resposta. Hoje percebo que não – apenas me faltava viver, sem querer controlar tudo; viver apenas sem medos, sem manipulações.»
«Eu também…» – disse o Rúben – «Eu também sinto isso. Sinto uma realização, uma paz… sinto-me feliz. Sabes, quando cá cheguei trazia a necessidade de corrigir um erro. Quer dizer, o que me fez inscrever foi a vontade de estar com a Ana. E isso para mim não é um erro. A forma como manipulei tudo é que foi um erro. E há muito que queria contar-lhe a verdade e acabei por não contar por medo…»
«E também porque, de certa forma, eu te disse para não o fazeres!» – disse a Ana.
«Verdade, tu disseste-me para o dizer apenas quando estivesse preparado… sinceramente, eu não te contei porque tinha medo de o fazer e as tuas palavras eram tudo o que queria ouvir naquele momento. Não queria que me motivasses a falar. Queria apenas que me impedisses de falar. Tinha medo de te perder. Este workshop acabou por me ensinar que não é possível perder alguém que não se tem. Mais, não é possível ter alguém. Apenas podemos partilhar tudo o que somos com os outros. Podemos escolher viver com uma determinada pessoa um certo sentimento. Por isso, este workshop trouxe-me paz… finalmente, consegui perceber o que dizias sobre querer alguém ao teu lado que não precisa de ti… é verdade, é muito mais prazeroso saber que alguém está ao nosso lado apenas por querer estar, em vez de sentir a necessidade de nos ter ali, como se de ar se tratasse.»
O silêncio voltou. Foi unânime o movimento de regresso ao mar. Pareciam querer continuar aquela conversa através dele, do mar. Tal como no dia anterior, ficaram ali – durante horas – a mimá-lo com a leveza dos sentimentos que os uniam mais uma vez em pleno alto mar.
O regresso a casa aconteceu em silêncio. Foram quase três horas de uma viagem sem paragens, sem palavras e muita conversa interior. Já passava da meia-noite quando pararam à porta de casa da Inês e do Marco. Saíram do carro, tiraram as malas da bagageira e acompanharam a Ana até ao carro. Ela apenas atirou o saco para cima do banco de trás e abraçou-se ao Marco. Pouco depois afastou-se e disse:
«Agora percebo o prazer que sentes quando te sentas em silêncio durante horas.»
Ele sorriu e retribuiu:
«E eu percebo agora o prazer que sentes em dar atenção a cada movimento, a cada gesto, a cada palavra, a cada inspiração…»
Com um sorriso, deu-lhe um beijo na face e passou à Inês. Abraçou-a e, tal como com o Marco, afastou-se acompanhada de algumas palavras.
«Inês, a provocadora… obrigado por toda a paciência comigo. Sei que tenho um feitio difícil e controlador. Acredita que hoje consigo perceber grande parte das palavras que me ofereceste durante os anos da nossa amizade.»
«E eu percebo o porquê de tanta solidão. Ela é nossa amiga. A solidão é boa quando é consciente. Faz-nos bem ter momentos para estarmos sós, com os nossos sentimentos, pensamentos, desejos… também te agradeço amiga!» – abraçaram-se novamente e despediram-se com um beijo na face.
O Marco fez sinal à Inês para entrarem. Queria deixá-los sozinhos…
A Ana lançou um olhar na direcção dele.
«Rúben…»
«Ana…» – sorriu.
Ela não sabia o que dizer… ou melhor, ela não sabia como começar. Inspirou profundamente…
«Rúben… desculpa… e obrigada!»
«Porquê… e porquê?» – imitava a sua linguagem corporal.
(sorriu) «Desculpa por ter sido tão parva contigo no início. E grata pela paciência!»
«Não foi paciência, foi determinação!» – riram – «Já agora, posso acompanhar-te até casa?»
«Hã… bem…» – sorriu para esconder a surpresa.
«Está tarde. Pode ser perigoso, andares por aí sozinha. E, reconheço, também seria uma excelente oportunidade para conhecer o interior de tua casa!»
«E como voltas?»
«Sei lá! Se calhar não volto…» – esperou a reacção – «Pelo menos até amanhã.»
«Rúben, Rúben…»
«Então! Já conheço a tua pele – senti o calor dela; já provei a suavidade dos teus lábios… só me falta conhecer-te por dentro… quer dizer, a tua casa.»
Ficou sem saber o que dizer. Num movimento lento, abraçou-o. Ficaram assim durante alguns minutos. Apenas abraçados. Sentiam o turbilhão de emoções que os percorria de uma ponta à outra. A conversa era agora em silêncio. Ele desafiava-a a entregar-se; ela tentava a descontrolar-se.
Os corpos unidos num toque completo de almas, que os levou de volta ao mar. Sentiram a naturalidade das ondas do mar, que chocam umas nas outras e rapidamente se transformam numa só onda gigante. Da turbulência nasceu a serenidade através de um beijo silencioso e assim se abriu caminho ao amor.

Excerto de conto inédito, Recria-te!

One Reply to “Recria-te!”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s