Ouçam o vosso corpo!


Sentei-me, com as plantas dos pés assentes na terra e os olhos colados ao verde oscilante das árvores daquele jardim. Enchi os pulmões, com uma inspiração e bloqueei a ventilação, por segundos. Fechei os olhos, ao soltar o ar com uma longa expiração.
Sem pensar, levantei a mão direita e deslizei-a subtilmente pelo braço esquerdo. Do encontro entre a mão quente com o braço suave nasceu a estranheza de um cotovelo seco. A pele do meu cotovelo parecia lixa, de tão áspera.
Há muito não o sentia assim!
Lembrou-me outros tempos.
Aos oito anos, surgiram pequenas bolhas com líquido transparente nos braços, que rapidamente se alastraram a todo o corpo. Essas pequenas bolhas começaram por provocar desconforto pela comichão, porém evoluíram para crostas, feridas, cicatrizes, deixando manchas que ainda hoje tenho. A aspereza, de hoje, era uma constante.
Os dermatologistas, durante anos, não conseguiram diagnosticar a patologia, propondo tratamentos à sorte. Por isso, aos 20 anos, tomei a decisão de deixar andar e não me preocupar mais com a pele.
Há cerca de cinco anos, voltei à dermatologia e saí do consultório com um diagnóstico de dermatite atópica e sensibilidade excessiva a determinados alimentos, como frutos e legumes vermelhos, leguminosas, café, álcool e frutos tropicais.
A dermatite atópica está relacionada com a película hidrolipídica estar danificada e ser incapaz de proteger adequadamente a pele das agressões diárias. Por isso, o tratamento proposto consistiu na substituição do gel de banho por um óleo de banho para peles atópicas, a utilização de um hidratante para peles atópicas e de um protector solar diário, para além de evitar os alimentos que provocam as reacções cutâneas.
A vida é surpreendente!
Dá sempre um jeito de nos apontar o caminho necessário à nossa evolução.
Este toque ao acaso num cotovelo seco e áspero lembrou-me um livro maravilhoso, que há muito não abria. O teu corpo diz “ama-te”, de Lise Bourbeau, oferece-nos um ponto de vista metafísico para algumas doenças.
E abençoada quarentena, que me trouxe paz de espírito e disponibilidade para parar, sentar e dar mais atenção ao meu corpo. A tomada de consciência de um cotovelo estranhamente áspero chegou num desses momentos. A lembrança de Lise Bourbeau também.
Comecei por consultar a página 300, onde aborda os problemas de pele, em geral. Fala da pele como «o invólucro do corpo» e como representação da «imagem que o ser humano tem de si próprio». Defende que as alterações cutâneas estão directamente ligadas à extrema sensibilidade que o ser humano tem em relação «ao que se passa no exterior, que se deixa com demasiada facilidade tocar pelos outros (no sentido figurado) e que tem dificuldade em se amar tal como é».
Na página 226, Lise Bourbeau fala sobre pele seca ou ictiose. Defende que «toda a forma de pele seca está ligada a uma atitude demasiado seca, não bastante doce. A pele, que representa a personalidade que mostramos, dá-nos uma boa indicação daquilo que a pessoa quer que os outros vejam nela. Não quer expor a sua vulnerabilidade e a sua doçura».
Faz sentido. A dermatite atópica consiste na secura da pele. A aspereza que sinto no cotovelo é denunciadora da minha atitude áspera para comigo e com os outros. E isso acontece porque tenho medo de me expor, não quero ser vulnerável.
Para aprofundar esta mensagem, recorri à página 123, onde a autora fala sobre o cotovelo, especificamente. O que pude perceber é que a minha atitude áspera é provocada por ter medo de me sentir limitada nas minhas acções.
E porquê?
Procurei pelo braço… sim, toquei no meu braço e isso lembrou-me de procurar no livro algo sobre o braço. Afinal, o cotovelo fica no braço e limita a amplitude de acção do braço. Lise Bourbeau aponta os braços como necessários «para passar à acção de uma forma geral», tendo «múltiplas funções».
A minha atitude áspera aparece sempre que sinto que não tenho espaço para agir livremente, o que pode denunciar uma crença limitadora de não ter as capacidades necessárias para cumprir a minha missão, as minhas funções nesta vida.
Adoraria dizer que nada disto faz sentido!
Quer dizer, não sei se adoraria assim tanto…
A verdade é que não posso dizê-lo sem sentir que estou a mentir a mim mesma.
Quando tomei a decisão de não me preocupar mais com a condição da minha pele, entrei numa fase de 10 anos, aproximadamente, em que a dermatite atópica acalmou. Era raro ter feridas abertas ou irritações extensas no corpo ou mesmo sentir uma comichão que me fazia sentir vontade de arrancar a minha própria pele.
Curiosamente, isso coincidiu com o período em que iniciei a busca de mim mesma. Foi uma fase de auto-conhecimento, de desenvolvimento, de uma maior conexão comigo mesma através da prática diária da escrita, da numerologia, da meditação, do yoga, do tai-chi, da massagem ayurvédica, do reiki, da natureza.
Foi nessa altura que me permiti viver mais, experienciar mais, arriscar mais…
Foi nessa altura que apostei mais em mim e nas minhas capacidades…
A fase em que a minha pele transformou o grito de alarme numa mensagem mais sussurrada coincidiu com o período em que não tive medo de agir livremente, acreditando que o espaço, o tempo, os recursos apareceriam sempre que precisasse, para além de confiar na minha capacidade para cumprir o que me propunha!
Mesmo assim, a pele seca foi uma constante. Por isso, tendo a acreditar que essa aspereza sempre esteve presente na minha atitude para comigo e com os outros.
E hoje, por acaso, sinto a suavidade do braço interrompida pela secura do cotovelo!
Hoje, a minha alma lembrou-me que ainda há muito caminho a percorrer.
Hoje, a minha alma comunicou comigo mais uma vez através do meu corpo.
Hoje, a minha alma pediu-me para ser mais afável, meiga, doce, amável, suave, delicada comigo e com os outros.
Todos os dias, a nossa alma comunica o nosso caminho de evolução, através do nosso corpo – sensações, dores, doenças, calores.
Ouçam o vosso corpo e procurem descodificar a mensagem que a vossa alma vos manda, pois é assim que mudamos o mundo!
Grata por tudo!

Fonte:
Bourbeau, Lise O teu corpo diz “ama-te” – A metafísica das doenças e do mal-estar, 2002, Lisboa (Pele – pp. 300; Ictiose – pp. 226; Cotovelo – pp. 123; Braço – pp. 75)

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